
Daniel Vorcaro diante da familícia e seus métodos.
Os matadores de aluguel que executaram Marielle Franco e do seu motorista Anderson, depois de identificados e presos, a princípio guardaram o mais total e absoluto silêncio sobre os mandantes do crime. Mesmo diante de provas e evidências inquestionáveis, insistiram na tese de que eram inocentes. Para alguns, esse silêncio e a negação do crime faziam parte de uma certa ética do crime organizado, uma relação de fidelidade canina típica das máfias sicilianas. Nesses casos, o preço a pagar por uma delação, pela ruptura dessa lealdade absoluta, pode ter consequências funestas. Não só para o delator, mas também para os seus familiares.
Porém os executores de Marielle e Anderson mudaram de ideia, deixaram a lealdade de lado e decidiram “colaborar”. E por quais razões? Uma análise da linha do tempo explica: a derrota de Bolsonaro nas urnas e o fracasso do golpe de 8 de janeiro. Coincidência ou não, a delação veio logo após estes fatos. Não é necessário refletir muito para concluir que possivelmente contavam com uma promessa de indulto presidencial. Frustrada essa perspectiva, escolheram delatar para negociar condições mais amenas de cumprimento da pena. Há quem diga que essa delação premiada omitiu outros nomes, e que os irmãos Brazão seriam meros bodes expiatórios. Talvez nunca saibamos.
Vorcaro não é elegível para o programa de proteção à testemunha. Também não tem a possibilidade de ser “convidado” a desaparecer em segurança, como o porteiro do condomínio Vivendas da Barra, investigado a pedido do Ministro da Justiça (Sérgio Moro, à época). Ter sido preso após uma tentativa frustrada de fuga pode ter sido um golpe de sorte. Vide o Capitão Adriano, que levou muitos segredos para o túmulo por “resistir à prisão”.
O fato é que agora o Daniel Vorcaro está diante de um dilema semelhante ao dos executores de Marielle. Sofre pressões para não delatar a familícia. Por outro lado, corre o risco de cumprir pena na Papuda, ambiente de alto risco para um detento como ele. É provável que a ele tenha sido oferecido um indulto futuro em troca do silêncio, caso a familícia vença a disputa eleitoral. Ou ainda uma anulação de pena, graças a uma nova composição de STF terrivelmente evangélica (que já controla a relatoria do processo contra ele). Vorcaro está diante de um dilema terrível. Delatar para cumprir uma pena menor ou apostar na incerta ajuda de um possível “brother” na presidência. No meio disso, o alto risco de virar um Epstein dos trópicos e ser suicidado na Papuda.
Os bilhões que presumivelmente oculta em paraísos fiscais não o salvarão.