Aos perdedores, as bananas!

Primeiro foi o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, em sua fala na Conferência de Segurança de Munique no dia 13 de fevereiro. Naquele que é um dos principais fóruns geopolíticos do mundo, e sob os aplausos de muitos representantes da comunidade europeia, Rubio expôs de forma clara o caráter neocolonial do projeto MAGA. Se ainda restava alguma dúvida, o próprio presidente Trump, no tradicional discurso do “Estado da União” do último dia 24 de fevereiro, reafirmou o projeto imperial que será imposto goela abaixo dos que não tenham meios militares para oferecer resistência.

Ambos os discursos estão na página do governo dos EUA, para quem quiser conferir.

Para nós, latino americanos, é reservado o papel de países servis aos interesses dos EUA.

No Brasil, a tarefa parece fácil. Nossos generais são historicamente subordinados ao Comando do Sul dos EUA, e se sentem felizes assim. Os think tanks dos militares brasileiros até delinearam o perfil da república bananeira do século XXI, numa publicação grotesca denominada Projeto Brasil 2035: o Brasil como um grande “fazendão” exportador e com o capital financeiro lavando a égua numa privataria escrachada na saúde, educação, saneamento e previdência.

Nossa elite econômica, desde que continue a usufruir da riqueza proporcionada pela pornográfica desigualdade na distribuição de renda no país, aceitará a submissão aos EUA de bom grado (mesmo que tenha que fazer algumas concessões pontuais). Para manter essa situação ela conta os Deputados e Senadores eleitos com o seu generoso financiamento, estes também só interessados em manter o poderio paroquial de seus clãs.

A América Latina já está quase toda dominada pelas vias ditas “democráticas”. E sem grandes dificuldades. As esquerdas agonizantes, respirando por aparelhos, tem se mostrado incapazes de oferecer resistência. Em breve, Colômbia e Peru estarão alinhados com o Tio Sam. A Venezuela foi neutralizada, Cuba vai sendo asfixiada e a Nicarágua provavelmente terá destino similar.

E aí todas as atenções se voltarão para o Brasil, a última cidadela a ser conquistada. O único país com uma liderança popular capaz de oferecer alguma resistência ao domínio imperial.

O cerco está se fechando. A grande imprensa, porta-voz da elite econômica, já reativou o seu jornalismo de guerra. Ensaiou uma nova lava-jato, tentando manipular a fraude do Banco Master a favor dos interesses da Faria Lima. Com o fracasso da aposta em uma suposta terceira via “light” com o governador de São Paulo, em breve irão abraçar o jovem filho da familícia. É questão de tempo.

Alguns poderão indagar: – Será que irão cometer o mesmo erro de 2018? Sim, porque não consideram que erraram. Optaram pelo que consideravam o mal menor para eles (para os interesses financeiros deles não para o país). Não há como não lembrar nessa hora da clássica cena do filme Terra em Transe, do Gláuber Rocha:

https://www.youtube.com/shorts/90oZOkiTNwc

Aos EUA, em modo desespero, só lhes resta cravar as suas garras no que consideram o seu quintal. E a China não irá nos salvar. Apenas cuidará de negociar a preservação dos seus interesses econômicos na região.

As eleições, a grande batalha em defesa da nossa soberania está chegando. Além da grande imprensa, as bigtechs já estão calibrando os seus algoritmos para impulsionar as candidaturas neofascistas. Ações subterrâneas da CIA e da NSA, quiçá do Mossad,  também já devem estar em andamento.

A batalha será duríssima. Uma derrota dos democratas condenará o Brasil ao caos e ao retrocesso por ao menos duas décadas. É imenso o risco de sermos condenados definitivamente à situaçao de maior república bananeira do planeta.

O desafio será conquistar uma parte do eleitorado que vota contra os seus próprios interesses (as ovelhas que votam no lobo, os insetos que votam no inseticida…).

Será necessário constantemente desviar das armadilhas das pautas morais. Fomentar o pânico moral, explorar os medos humanos, é uma das armas mais eficazes dos fascismos. A luta de classes deve ser o princípio, meio e fim de toda pauta em debate. A proposta do fim da escala 6×1 é uma janela de oportunidade que não pode ser desperdiçada.

Para derrotar o neofascismo bananeiro

Como temos afirmado aqui, a luta para nos libertarmos da sina de república bananeira tem o seu maior desafio nas eleições de 2026. É necessário derrotar o neofascismo, reeleger Lula e conquistar uma maioria parlamentar que lhe garanta mínimas condições de governabilidade.

Como fazer isso é o cerne da questão. O cenário, mesmo com um ligeiro favoritismo de Lula, não é nada animador.

A esquerda morreu, vaticinou recentemente um filósofo. Na verdade, não é que ela tenha morrido. Mas ela está gravemente doente, debilitada e, até o presente momento, encontra-se incapaz de recuperar o seu ímpeto transformador e revolucionário. O mundo do trabalho mudou, a classe trabalhadora fragmentou-se, sua composição ficou mais complexa, a revolução da internet redesenhou as relações sociais, e os partidos de esquerda ainda não conseguiram adequar a teoria aos novos tempos. Ainda que a luta de classes ainda exista e continue a ser a melhor chave interpretativa da realidade.

O cientista político francês Bernard Manin foi um dos primeiros a perceber que a democracia liberal – que ele chama de democracia representativa – caminhava para um beco sem saída. Além de não conseguir dar respostas às mudanças no mundo do trabalho, os partidos políticos de esquerda converteram-se em burocracias auto-centradas. É cada vez mais difícil para o eleitorado diferenciar os que defendem seus interesses dos que são os seus algozes. Uma vez no governo, o simples discurso classista não se traduz em políticas públicas estruturantes, aquelas capazes de promover rupturas que impactem de forma significativa e duradoura a vida da classe trabalhadora. A social-democracia, incapaz de romper com lógica econômica neoliberal, restringe-se a implementar políticas sociais compensatórias, cujo alcance tem limites claros e efeito eleitoral limitado. E que ainda podem ser facilmente descontinuadas por governantes posteriores.

Chegar ao poder pela via eleitoral significa governar em permanente estado de sítio, refém dos ajustes fiscais e pressões por privatizações de interesse do capital rentista. A esquerda eleitoral se rendeu ao lema TINA – There is no Alternative, conforme sentenciou Margareth Thatcher. É isso o que temos. E Lula demonstrou ter clara consciência disso.

Muitas vezes ganhamos as eleições com discurso de esquerda, e quando começamos a governar pensamos muito mais nos interesses dos nossos inimigos do que nos dos nossos amigos. Muitas vezes, a gente governa dando resposta à cobrança do mercado, à necessidade de contentar os adversários, e os nossos eleitores são considerados por nós sectários e radicais. Esse é o fracasso da democracia”. (Lula, set/2025, em reunião realizada a margem da Assembleia Geral da ONU).

O cenário é tão grave que mesmo Lula, depois de fazer inúmeros apelos à militância, já cogita a hipótese de oferecer a vice-presidência ao Centrão, para afastá-los de uma composição com o neofascismo. Lula é um negociador formado nas lutas sindicais. Não se arrisca em confrontos quando não tem trunfos fortes. Para ele, uma composição ruim é preferível a uma derrota.

O fato é que os inimigos são poderosos. São capazes de sabotar a governabilidade dos governantes que não se rendem. E os partidos preferem negociar concessões do que se arriscarem a perder o poder. Só que agora, com a ascensão do neofascismo, esse tipo de conciliação é cada vez mais inviável.

Para Manin, essa falência da democracia representativa (liberal) abriu o espaço para a emergência do que ele chama de “democracia de audiência”: o embate político para a ser pautado por temas morais e explorado pelo discurso de lideranças carismáticas em forma de espetáculo. Dos temas morais, a corrupção é a grande cereja do bolo. Como nenhum partido que chega ao poder consegue se manter imune a ela, todos são jogados numa vala comum, acusados de fazer parte de um mesmo “sistema”.

O neofascismo não perdeu a oportunidade de ressurgir das sombras. Relembrando a clássica frase de Bertold Brecht, a cadela que estava no cio percebeu que chegou o momento oportuno para ser fecundada e gerar novas crias. Dai a profusão de políticos “anti-sistema” em todo o mundo, explorando de forma demagógica as frustrações do eleitorado e colhendo frutos eleitorais.

A fragmentação da base social da esquerda, com a precarização do trabalho e o enfraquecimento dos sindicatos, levou parte da esquerda a dar mais relevância as chamadas pautas identitárias (racismo, feminismo, combate à homofobia, etc.). Dessa forma, ao levar o debate para o campo da moral, os reinam os preconceitos da sociedade, deu ao neofascismo um espaço ainda maior para semear a confusão (propagando fakes como kit gay, banheiros unissex, ideologia de gênero, etc.) e faturar eleitoralmente com isso. O processo da reforma constitucional fracassada no Chile contém muitas lições a esse respeito, que culminou com o impensável retorno do pinochetismo ao poder.

Alguns pontos para a reflexão:

1) O neofascismo continuará a explorar os temas morais, usando e abusando das fakes news. Além da corrupção, a questão da segurança pública emerge como uma das principais preocupações do eleitorado. E o neofascismo vai bater nessas teclas.

2) A estratégia do “Lulinha paz e amor” não funciona mais. O apelo à composição, a eterna preocupação de evitar confrontos, é o caminho para a derrota (ou para uma “vitória de Pirro”, com a perda do parlamento). A elite neocolonial trabalha com dois cenários: a) a eleição de um dos seus, que preferencialmente não seja da “familícia”. Foram funcionais em 2018, mas são agora fator de risco para os negócios; b) uma indigesta – para eles – reeleição, em que Lula não tenha grande margem de manobra e seja ainda mais refém do Centrão (fruto das movimentações recentes do Kassab).

3) Toda provocação em questões morais devem ser refutadas com a lógica luta de classes. Rede Globo, Folha e Estadão vão surtar, mas tem que ser o nós contra eles, sim! Temos que lembrar que o aborto só é crime para a mulher pobre; o combate à criminalidade só penaliza pobre, preto e favelado; ladrões de banco não são nada se comparados aos banqueiros. E só os primeiros são efetivamente punidos. Todo fato deve ser interpretado pela ótica da luta de classes.

Recentemente foram tornadas públicas varias pesquisas que tentam explicar os elementos que definem as escolhas eleitorais do brasileiro (More in Common, ICL, Meio/Ideia, etc.) Nas próximas postagens iremos comentar os resultados dessas pesquisas.

Porém, há uma experiência histórica que deve ser resgatada: a eleição de 1982 no Rio de Janeiro, em que Brizola derrotou a máquina clientelista/patrimonialista de Chagas Freitas. Ao contrário de Lula, Brizola nunca abriu mão do confronto, ainda que aceitasse negociar acordos a posteriori. Falaremos sobre isso em breve. Lula precisa incorporar algumas das maiores virtudes do Brizola. Ou a derrota será imensa, mesmo “ganhando”.