
Há um misto de ingenuidade e otimismo exagerado nas interpretações correntes sobre as palavras que Donald Trump dirigiu ao Lula desde a Assembleia da ONU. Apesar de Trump ser um notório falastrão, cujas palavras não valem um dólar furado, ele ainda consegue fomentar o auto-engano naqueles que se deixam levar pelo “wishfull thinking”.
O fato é que havia a expectativa do Tio Sam de que o Brasil se ajoelharia facilmente diante das represálias tarifárias e da Lei Magnitsky, sem oferecer grandes resistências. Sim, subestimaram a capacidade política do governo brasileiro, do STF e da nossa diplomacia para defender a soberania nacional. Os neofascistas dos EUA confiaram nas informações fornecidas por interlocutores cuja burrice é estonteante. Por conta disso, deram com os burros n’água. Prejudicaram grandes setores econômicos do próprio país. Não devem largar totalmente na estrada os lambe-botas servis mas já perceberam que o Dudu Bananinha e o neto de ditador não passam de idiotas úteis.
Trump, que não é burro, aplicou um freio de arrumação. Do alto de seu “complexo de superioridade”, fez afagos ao Lula e encaminhou para o seu subordinado radical – que não tem nenhuma química com o Lula – a tarefa de desenrolar as negociações.
Que ninguém se engane: Trump não desistirá da capitulação do Brasil. O teor do discurso do Lula na Assembleia da ONU pouco significa para ele. Não temos poderio bélico nem arsenal nuclear. Nossa infraestrutura tecnológica é totalmente dependente. Somos reféns da “nuvem” das bigtechs. Se quiserem, podem minar a nossa economia, não somente com tarifas e sanções, mas com ataques cibernéticos e outras sabotagens.
O anunciado encontro presencial para breve é mera tática diversionista. Trump deve oferecer ao Lula uma rendição honrosa. Será o maior desafio que o hábil negociador sindical terá na sua vida. Aliás, de Lula há uma frase sábia, que desnudou o lugar comum dos manuais de negociações: “-não existe negociação ganha-ganha; existe o que ganha e o que finge que também ganha”. A vitória que conta não é o resultado material em si, mas o ganho estratégico obtido.
Talvez o Brasil possa obter recuos em sanções e tarifas. Há concessões fáceis para eles, já que empresas poderosas dos EUA estão amargando perdas significativas. É possível que obtenha a promessa de investimentos tecnológicos para exploração de minerais estratégicos do interesse deles. Mas a cereja do bolo, o alinhamento geopolítico não será resolvido na mesa de negociações: eles nos querem fora do BRICS.
Por isso, mesmo que ocorra alguma normalização superficial nas relações diplomáticas e comerciais, os ataques prosseguirão. Sejam através de ações de força, intimidatórias ou desestabilizadoras, ou com as armas da guerra híbrida. Não deixarão de interferir para eleger um capacho para a Presidência do nosso país no ano que vem. Nos veem como o seu quintal e de tudo farão para minar a nossa soberania.
Por essa razão, a tarefa número um é isolar e derrotar os quinta-colunas que atuam em nosso país.
A expressão “quinta-coluna” teve origem na guerra civil espanhola (1936-1939). O general fascista Emilio Mola cercou a capital Madri, então sob controle dos democratas republicanos, com quatro colunas militares. Naquela oportunidade disse que contava com o apoio de uma “quinta coluna” que atuava dentro da cidade, os fascistas apoiadores do general Franco que sabotavam a resistência interna, com a difusão de boatos e atos terroristas. A expressão passou a ser usada nos anos seguintes para denominar os que colaboravam com a invasão nazista em seus países. Hoje, é usada para os traidores da pátria, aqueles que atuam contra o próprio país para favorecer agressores estrangeiros.
Como já comentamos em outra postagem, décadas de soft power dos EUA colonizaram mentes por todo o planeta. Tal como os nazifascistas do século XX, esse neofascismo mobiliza hoje os seus quinta-colunas em todas as nações.

(…)Somos os camisas verdes no Brasil, os camisas pretas na Inglaterra, os camisas azuis na França!…Anauê! Anauê! …As cidades nos uniram! Somos os Camisas Cáquis nos Estados Unidos, os Camisas Douradas no México, os Camisas Amarelas na China!…(fala de Castro Cott, personagem integralista da peça teatral “Rasga Coração”, de Oduvaldo Viana Filho).
No caso do Brasil, sempre foram muitos os quinta-colunas entre nós. É algo que vem de longe. O integralismo foi um movimento de grande alcance no Brasil. Seus herdeiros ideológicos seguem atuantes e barulhentos, hoje na forma do bolsonarismo, com uma ampla hegemonia entre os militares das diferentes forças. Uma legião pronta para servir aos interesses de uma nação estrangeira acreditando na estúpida tese de que isso pode ser o melhor para o nosso país.
O ataque dos EUA ao Brasil é somente uma das batalhas da guerra em curso no mundo. Uma guerra em fase inicial, com ações claras de beligerância, que ainda não descambou para confrontos militares mais amplos.
O neofascismo mundial declarou guerra à democracia ocidental. Estão unidos e articulados com um mesmo objetivo. O excepcionalismo, o denominado destino manifesto dos EUA se configura como o nazifascismo do século XXI. Trump é o novo führer e o MAGA é o novo projeto de reich.
Também não devemos nos enganar com aqueles que enaltecem uma suposta “robustez” da democracia brasileira. Nossa democracia é frágil, e não sucumbiu por uma conjunção de fatores favoráveis. Se Trump, e não Biden, estivesse ocupando a presidência dos EUA? A maioria dos comandantes militares teria aderido ao golpe? E se Fux estivesse no lugar do Alexandre de Moraes? Se não tivesse tido a Vaza jato, Lula teria sido libertado? A velha sabedoria maquiaveliana nos demonstra que os democratas tiveram uma boa dose de virtu para se aproveitar de um momento de fortuna.
Portanto, é bom deixar as barbas de molho. A guerra está só começando.







Como já foi dito, Trump é um sujeito que sofre de um grave transtorno narcísico. Então todos os seus atos e palavras devem ser interpretadas primeiramente por este prisma. Câmeras flagraram o presidente dos EUA assistindo atentamente o discurso do presidente brasileiro. Um discurso altivo, insubmisso, que não deixou pedra sobre pedra. Nem mesmo diante de sanções e reiteradas ameaças da maior potência econômica e militar do globo. Lula foi a voz de todo o Sul Global. O que seria um aperto de mão protocolar, virou um abraço efusivo seguido de uma mensagem improvisada, dizendo que gostou dele, que rolou uma química, que o convidou para um conversa.
Certamente será uma armadilha perigosíssima. “Gostei de você” e “ rolou uma química”, são frases de abusadores antes de praticar um estupro. Uma breve tentativa de sedução a partir de uma posição de poder, que precede o ato violento em caso de não submissão. E Trump é um abusador, coisa que o abafado caso Epstein comprova.
È presumível que Trump tenha ficado impressionado com o tamanho da ousadia e da coragem expressa no discurso de Lula. Certamente o presidente ganhou o respeito dele. Trump sabe que tem recursos ao seu alcance – militares, econômicos e de psi-op – que podem provocar um caos no Brasil, mesmo que com alto custo político. E sabe que nós sabemos disso. Ainda assim, o governo Lula não se enverga. Talvez Trump tenha até percebido a diferença da postura de seus aliados no Brasil, um bando de covardes e sabujos. Mas ele precisa de capachos locais. Não deve abandoná-los na beira da estrada. Pelo menos até que encontre outros da confiança de seus asseclas.
Trump tem margem de recuo. Há setores econômicos poderosos que estão sendo prejudicados nos EUA. A questão é o que ele exigirá em troca. Porque ele jamais aceitará normalizar as relações com o Brasil sem que possa capitalizar uma vitória. Se o Reino Unido e a União Europeia se ajoelharam, porque não o Brasil, esse abusado?
Do ponto de vista econômico, o que deve estar na mesa é a participação na exploração dos nossos recursos estratégicos e a regulação das bigtechs, que são temas vitais para o MAGA. Do ponto de vista geopolítico, os EUA desejam o enfraquecimento dos nossos laços com o BRICS, pois o objetivo é a retomada do que eles consideram o seu “quintal”. Mas sabem que não podem exigir isso de imediato, dada a dimensão das relações econômicas envolvidas.
Já a familicia não será moeda de troca. Mas ela poderá testemunhar o começo do abandono da sua causa, de forma lenta, gradual e progressiva.
Seja como for, o mais hábil negociador da história do Brasil terá, possivelmente, o seu maior desafio. A conferir.