
Novas mudas de banana da república bananeira


O saudoso humorista Henfil, no único filme que dirigiu ao longo da vida (TANGA – Deu no New York Times), fez uma interessante paródia da nossa república bananeira. Num país fictício (tal como a Anchúria e Bruzundanga) a única coisa que incomodava a elite bananeira era a imagem negativa estampada no principal jornal da metrópole. Porque, na imprensa local, as bananices sempre geravam manchetes convenientes.
Como pouca coisa mudou na cabecinha das nossas elites bananeiras, as donas dos grandes meios de comunicação da imprensa local, a história sempre se repete. Criaram um factóide em torno do Ministro do STF que enfrentou a escumalha golpista, com a clara intenção de livrar a cara nos neofascistas e dar fôlego para a negociação de uma anistia aos golpistas. O recado é claro: vão apoiar de novo o fascismo caso o governo não desista de desviar recursos que engordam as suas contas com juros estratosféricos. Não querem que se invista no bem-estar da população mais sofrida (saúde e educação públicas, seguridade social e habitação popular). Além disso, cobram privatizações tão escandalosas quanto foi a da SABESP. Tudo para engordar ainda mais suas obesas fortunas.
Os jornalões já emprestaram seus veículos para a sequestro, tortura e morte de opositores durante a ditadura militar, já divulgaram fichas sabidamente falsas de pessoas indesejáveis para as nossas elites (muito antes da epidemia de fakenews), deram palco a agentes públicos vergonhosos quando operaram fraudes jurídicas. Ainda são os mesmos, como os nossos generais, com sua velha farda verde-oliva que pode lhes servir ainda mais (Perdão, Belchior!).
E também mandam um recado para aqueles que comem de garfo e faca, supostamente defensores das conquistas civilizatórias da democracia liberal. Como a clássica cena de outro filme que parodiou a nossa república bananeira (a república de Eldorado, de Terra em Transe, do Gláuber Rocha):
https://www.youtube.com/watch?v=90oZOkiTNwc
Usando conceitos de Gramsci, faltam lideranças orgânicas entre as classes subalternas para resisitir com mais vigor a esse ataque neofascista.

BOLÍVIA, VENEZUELA, BRASIL.
Bem que os milicos bolivianos tentaram mais uma vez. Atingiram a incrível marca de 194 quarteladas na história da Bolívia. Algumas bem sucedidas, mas quase sempre com vida curta. Desta vez o fracasso foi imediato. Ou melhor, nem tão imediato assim, já que durou o suficiente para a escória do golpismo brasileiro celebrar com aquela típica euforia do torcedor antes do VAR assinalar que o gol foi anulado. Mas a turma verde-oliva dos andes ainda está longe de nos roubar a taça de maior república bananeira do planeta. E é fácil dizer o porquê.
Lá os golpistas foram em cana. Aqui, os fardados golpistas seguem impunes, alguns sequer são investigados, apesar das inúmeras evidências, há ainda aqueles golpistas que permanecem ocupando cargos e funções de relevo na corporação. E, para os que foram escolhidos para servir de “boi de piranha”, no silêncio dos bastidores vai sendo articulada uma anistia ou, no máximo, alguma punição simbólica. A grande imprensa – porta voz das classes dominantes – finge que não vê. O golpe é um recurso que querem sempre ter ao seu alcance. Parlamentares golpistas celebraram a quartelada dos vizinhos no primeiro minuto, algo tratado com a maior naturalidade pela mídia e pelas instituições ditas republicanas.
A elite bananeira não se escandaliza. Enquanto se chafurda nos juros pornográficos que lhes dá rendas astronômicas, exige cortes e maior austeridade nos gastos públicos. Nos editoriais de seus jornalões clamam por uma nova reforma da previdência, mas omitem o peso da previdência dos militares. Usam a fragilidade da democracia para que o governo não enfrente privilégios. Os milicos bananeiros são os seus cães de guarda e não cogitam desagradá-los.
Desiste, milicada da Bolívia. Vocês podem chutar mais ao gol, mas o que conta é a bola balançando a rede pelo lado de dentro.. Essa taça do mundo é nossa, ninguém tasca. O título de maior república bananeira do mundo ainda é nosso.
Diante da quartelada fracassada, a reação do Tio Sam foi reveladora. Nenhuma condenação contundente. Seguramente seus órgãos de inteligência sabiam da articulação golpista. Continuam os mesmos. Com o avanço do neofascismo no cenário internacional, os prognósticos para as nossas frágeis democracias não é nada animador.
O caso da Venezuela, com suas inúmeras versões e contraversões, desnuda uma contradição que poucos analistas têm a coragem de expor com franqueza: que a democracia liberal não dá conta de garantir a soberania de nações periféricas diante dos interesses econômicos do imperialismo ianque. Hugo Chavez, inverteu a lógica militar ao reestruturar as forças armadas numa orientação nacionalista (além de conceder benesses corporativas, claro). Assim, privou o Tio Sam de seu principal ator golpista. Sem eles, as tradicionais ações de desestabilização – sanções econômicas e outros atos de guerra híbrida – têm sido insuficientes. Tudo indica que o governo Maduro aparelhou todas as instituições para trabalharem a seu favor. Porém as elites bananeiras sempre fizeram isso, de forma sutil ou não, sem nunca despertar qualquer indignação nos “formadores de opinião”, pelo contrário.
Não há lugar para republicanismo ingênuo na luta de classes. As instituições da república sempre foram objeto de disputa política. Agentes públicos nunca são isentos. Quando muito, agem com honestidade, mas só quando o custo político da parcialidade é muito alto.
Pode ser que as eleições da Venezuela tenham sido fraudadas, mesmo reconhecendo que o chavismo ainda possui relevante base social. Talvez o governo Maduro seja realmente desastroso. Mas o que acontece lá não é uma disputa democrática, é um confronto geopolítico, uma guerra híbrida em andamento. Em que a situação tenta preservar a soberania sobre a principal riqueza da nação – o petróleo – e uma oposição neofascista (fato omitido e naturalizado pela mídia) opera a serviço dos interesses econômicos dos EUA.
O mesmo EUA que silenciou no golpe boliviano, reconheceu quase de imediato o opositor venezuelano como presidente. O neofascismo não é o inimigo dos EUA; é um instrumento para garantir a sua hegemonia no seu quintal. Se no plano interno Trump é um problema para a democracia deles, no plano externo o neofascismo é funcional e, quando conveniente, um importante aliado.
O mais preocupante é que, o fiel da balança nessa disputa, são os militares. Herança bananeira que até hoje infesta as nações latinoamericanas. As elites venezuelanas têm tentado cooptá-los, até agora sem sucesso. Difícil a situação da Venezuela. Tem tudo para terminar em mais uma sangria pelas veias abertas da américa latina, como escreveu Galeano.
O grande desafio que se coloca é a reinvenção da democracia para as nações do sul global, diante da evidente falência do modelo liberal.


Vai se confirmando mais uma vez a expressão que diz que, no Brasil, tudo acaba em pizza No caso da nossa república, pizza de banana. E isso tem uma tem uma razão de ser. Os ingredientes desta pizza são periodicamente separados e preparados sem fazer alarde.
A classe dominante brasileira e seus asseclas, a elite econômica bananeira com seu DNA escravocrata, nunca irão aceitar que um projeto de nação inclusivo e soberano possa ter sucesso. Se fez algumas concessões, se aceitou a libertação e eleição do Lula, foi porque a entrega do comando político do país a um fascista, apesar de útil , teve efeitos colaterais indesejáveis para a nossa elite colonial. Além do risco de prejuízos financeiros, trouxe danos à imagem internacional dos farialimers, principalmente por terem apoiado o negacionismo ambiental escrachado do governo Bozo. Quando o humorista Henfil fez o filme “Tanga – Deu no New York Times”, ele apontou bem esse temor da burguesia brasileira: ela não suporta que as elites das metrópoles expressem o que pensam sobre elite colonial brazuca: uma turma endinheirada, porém tosca. O ego dessa turma se ressente.
Pode ser que o Bozo permaneça inelegível, talvez até seja condenado pelos crimes que cometeu – como um alerta aos fascistas – mesmo que seguida de uma anistia negociada. Uma mis-en-scene, para avisar que, se insistirem em atacar a democracia, numa próxima oportunidade talvez, e põe talvez nisso, não sejam perdoados.
No portal de receitas de uma grande multinacional da indústria alimentícia, há uma reveladora receita de pizza de banana. Os ingredientes e modo de preparo, se lidos pelo viés da ciência política, servem de metáfora do que está sendo assado no forno do poder. Após enfatizar o cuidado para garantir uma massa homogênea que “não grude nas mãos” do cozinheiro, finaliza a fornada com leite condensado…
O fato é que o bolsonarismo é útil, é funcional para elite econômica, uma arma que não querem abrir mão. Pode ser necessário acioná-la de novo. Por isso promovem aqueles que, minimamente, sabem algumas regras de etiqueta..
Um grande jornal dedicou três páginas inteiras para promover o governador neofascista de São Paulo; O telejornalismo abriu um generoso espaço ao governador hiper-neoliberal do RS, não para questioná-lo sobre suas omissões na prevenção da tragédia, mas para promovê-lo. A imprensa faz ressurgir das tumbas um ex-candidato à presidência que julgava-se politicamente morto (o “primeiro a ser comido”). E o STF, cansado de ser o único poder a pagar o alto preço de enfrentamento do fascismo, resolveu fazer concessões, libertando terroristas do 8 de janeiro e relaxando na punição aos lavajatistas. Paralelamente, Tribunais eleitorais decidiram passar pano para crimes eleitorais, com argumentos de que os crimes não interferiram decisivamente no resultado. Porteira aberta para beneficiar os de sempre. Tudo em nome de uma suposta pacificação e conciliação entre os poderes.


Este blog se manteve em silêncio nos últimos meses. Muita coisa aconteceu, mas foi sempre mais do mesmo do que vínhamos publicando aqui desde o início. Não quisemos ser por demais repetitivos. Desde o início deste blog falamos que o golpismo militar é uma doença crônica do Brasil, o que nos faz a maior república bananeira do planeta. Avisamos que um golpe seria tentado e alertamos para o risco de ações (para)militares terroristas. Para quem nos via como simplórios adeptos de teorias conspiratórias, o tempo nos deu razão.
Fracassada a intentona golpista, o que vimos nos últimos meses foram as FFAA golpistas negociando impunidade e manutenção do seu status quo até a próxima oportunidade de dar uma quartelada. Tudo com a mediação pública de um ministro fantoche, para evitar expor as fardas sujas e manchadas.
As revelações da PF sobre a investigação da intentona de 8 de janeiro, a partir dos áudios e vídeos deixados incólumes pela imprudência do ajudante de ordens da presidência, nos permitiu chegarmos a algumas conclusões:
1- A quase totalidade dos militares estava disposta a bancar um golpe. A pressão do Departamento de Estado dos EUA, a quem prestam obediência, jogou um balde de água fria no projeto golpista. Parte majoritária do alto comando das FFAA avaliou que seria uma aventura com grande risco de fracassar. Muito a contragosto, porém obedientes e resignados, decidiram não levar a quartelada adiante. Porém um grupo de golpistas convictos não se submeteu às ordens superiores e seguiu agindo em paralelo. Outros assumiram uma posição cômoda, colaborando com os preparativos de sedição num estilo low-profile, torcendo pra dar certo, mas não se envolvendo abertamente, a fim de se preservarem em caso de fiasco.Se desse certo, estariam dentro; se desse errado, diriam cinicamente não ter nada a ver com isso (como de fato fizeram). Estes são os supostos “legalistas”, que não agiram para frear o golpismo. Deixaram os subalternos se articularem livremente, fizeram vista grossa, se omitiram vergonhosamente. Se o golpe vingasse, mesmo com vida curta em razão de seu isolamento internacional, os tais “legalistas” entrariam em cena como os pseudorestauradores da ordem democrática. Mas só após terem afastado do poder todos os adversários inconvenientes. Talvez este fosse até mesmo o Plano B dos golpistas, Fracassada a intentona, o alto comando agiu para abafar o caso e garantir a impunidade de seus pares, seus “irmãos por escolha”, no bom e velho corporativismo da caserna. Sempre com a velha e esfarrapada desculpa de preservar a instituição militar.
2 – O que não estava nos planos foi o descuido do ajudante de ordens da presidência, que permitiu a descoberta da trama e expôs os dissensos entre os generais e alto oficiais A revelação das conversas dos golpistas escancarou uma ferida grave no meio militar: o veneno da insubordinação. Chamar um “irmão” de “cagão”, foi além dos limites toleráveis. Sem respeito à hierarquia e à disciplina, a instituição militar desaba. E isso abriu uma brecha para a punição de alguns golpistas mais empedernidos. Agora os comandantes já aceitam a punição individual de alguns oficiais, que serão entregues à própria sorte. Afinal, alguém terá que pagar o pato. Que não se espere uma punição dura e abrangente. Mas alguma penalização haverá, o que não deixa de ser alguma coisa. Em troca, parece que foram muitas as negociações de bastidores para frear a execração pública dos militares: Comissão da verdade enterrada, nada de ordens do dia em 31 de março, nenhum ato oficial em defesa da democracia. E não perderão uma oportunidade de anistiar os envolvidos, em nome de uma “pacificação nacional”.
3 – Dessa forma, o “coração golpista” das instituições militares seguirá vivo, ainda que momentaneamente recolhido, na defensiva. Porém o golpismo continuará a ser uma sombra a nos ameaçar, com as academias militares despejando centenas de “golpistas do amanhã” a cada ano. A maior república das bananas do globo ganha tempo para a sanha golpista recuperar o seu fôlego. A sociedade política demonstra ser incapaz, além de covarde, para enfrentar a chantagem militar. E a sociedade civil, fragilizada, tampouco é capaz de reagir à altura. Nossa sina de permanecermos como a maior república das bananas do planeta segue intacta.
4 – O respeito à hierarquia, no caso a externa, a submissão ao comando militar do sul dos EUA, provocou uma cisão nas FFAA. E o golpe só não ocorreu não pela intervenção de “legalistas” mas, como disse um golpista descaradamente, pela inação de generais “cagões”. É certo que, se tivesse sido implementado, a quartelada bananeira não teria vida longa. Mas provavelmente causaria prisões e assassinatos de autoridades e lideranças populares, com alto risco de derramamento de sangue pelas ruas, numa violência provavelmente terceirizada para os CACs. Esse era o projeto por trás da liberação desenfreada das armas e munições, que ninguém se engane quanto a isso.
5- Neste cenário, chega a ser patético e risível a atenção dada à decisão do STF que “esclarece” que o artigo 142 da Constituição não permite que os militares interfiram no poder civil. Tudo não passa de mais um ato do teatro de conciliação com a milicada golpista.Alguns poderão argumentar que esta decisão tem um significado simbólico e outros bla-bla-blás. Como se nas repúblicas bananeiras o ato de rasgar e pisotear a Constituição não fosse a primeira ação das quarteladas.
6 – Como o fascismo segue vivo e atuante, com alguns de seus líderes consagrados com votações expressivas, o risco de novas conspirações não está descartado. Que os órgãos de inteligência acompanhem de perto possíveis ações terroristas organizadas por oficiais militares ou paramilitares dos CACs. Aliás, um oficial tinha um verdadeiro paiol em casa, que explodiu acidentalmente. Não é difícil imaginar com que intenções ele mantinha esse armamento. E certamente existem outros paióis espalhados pelo país. Prova disso é que outro “cidadão do bem”, defensor da família tradicional, após matar a amante foi descoberto com 80 armas e mais de 16 mil munições em casa. Que ninguém se iluda: esses episódios revelam apenas a ponta do iceberg.
7 – Enquanto isso, o Governo Lula segue sitiado e sabotado pela oposição, com sérias dificuldades de implementar mudanças que provoquem algum impacto relevante no cotidiano dos cidadãos brasileiros, seja no curto ou médio prazo. O Presidente, cujo carisma nos salvou da tragédia que seria a reeleição do inominável, vê a sua popularidade ser lentamente corroída.
8 – Uma provável vitória de Trump poderá ser o estopim de uma nova ofensiva golpista. Resta, pois, pouquíssimo tempo para desarmar as inúmeras minas espalhadas pelo caminho pelos fascistas nos quatro anos sob domínio do capetão.
Para finalizar

O Equador parece que deseja tirar do Brasil o status de maior república bananeira do mundo. Acaba de eleger para a presidência um grande empresário exportador de bananas. Apesar da piada pronta, o Brasil segue na dianteira, e com folga.
Muita gente recusa a ideia, se ofende ou trata com desdém o mote deste blogue, que afirma que o Brasil é a maior república das bananas do planeta. Afinal, nosso país possui muitas áreas de excelência que nos enchem de orgulho. Temos o domínio da tecnologia aeronáutica, da exploração de petróleo em águas profundas, do desenvolvimento de vacinas e fármacos, de serviços bancários modernos como o Pix, sem falar da imensa riqueza da nossa diversidade cultural, entre muitas outras virtudes. O que acontece é que o senso comum associa a ideia de “república das bananas” a um estágio de subdesenvolvimento colonial, a um certo arcaísmo simplório. Porém, o que caracteriza de fato a “bananidade” é outra coisa: é o papel desempenhado pelos atores políticos hegemônicos num país, a qualquer tempo: a elite agrário-extrativista-exportadora, os militares que insistem num papel tutelar sob o poder civil, uma classe política patrimonialista e paroquial sem qualquer compromisso programático com o desenvolvimento soberano de um país. No Brasil, em tempos recentes isso foi sintetizado no trinômio “boi, bala e bíblia” (existiriam ainda outros “b” – de bancos, de brancos – que são transversais a essa tríade). E tudo isso pode conviver tranquilamente com uma modernidade tecnológica em diferentes campos.
No primeiro dia do julgamento dos primeiros acusados pela intentona de 8 de janeiro de 2023, uma coisa ficou clara: ainda estamos muito longe de deixarmos de ser uma típica “república bananeira”.
O subprocurador-Geral da República afirmou na abertura dos trabalhos: “- É importante registrar também que o Brasil há muito deixou de ser uma República das Bananas, e hoje goza de prestígio Internacional nas grandes democracias. Golpe de estado é página virada na nossa história“, disse ele.
Infelizmente, isso é uma meia verdade. A imagem internacional do Brasil foi seriamente abalada e ainda vai demorar muito para se restaurar. Se algum prestígio foi recuperado, isso se deve somente à habilidade e ao carisma do Presidente Lula. O espectro do golpismo permanece latente. Porque a nossa democracia se mostrou extremamente frágil e permitiu a consagração de um neofascista tosco, que não se reelegeu por uma margem muito pequena, mesmo após um governo desastroso. O mundo civilizado nos olha com certo alívio, mas sabe que retrocessos não estão fora do horizonte.
Iniciado o julgamento, o Ministro relator, a quem reconhecemos o mérito de ter enfrentado corajosamente o golpismo, também deu a sua “patinada” em relação aos militares: “– O fato de eventuais militares terem participado de ações golpistas e estarem sendo investigados não macula uma verdade histórica, que deve ser proclamada: o Exército brasileiro não aderiu a esse devaneio golpista de vários, inclusive políticos que estão sendo investigados”, disse o relator.
Ora, as digitais dos militares estão por todo lado. É óbvio que tramaram e executaram uma ação clandestina visando o golpe. Nas publicações anteriores já comentamos exaustivamente sobre isso. A fala do relator deixa claro que a impunidade dos militares foi negociada nos bastidores. Ao que parece, serão imolados apenas os “patriotários”, pessoas com profundas limitações cognitivas que se prestaram a massa de manobra de uma casta neofascista, porém esperta. Serão punidos também alguns bodes expiatórios fardados que ficaram numa situação indefensável e, talvez, poucos políticos do baixo clero e financiadores dos atos também serão chamados a pagar o pato. Uma anistia num futuro breve provavelmente os espera, em nome da “união nacional”. Os grandes mentores da intentona golpista provavelmente escaparão ilesos ou sofrerão punições simbólicas. Resta saber o destino do ex-presidente. Se será punido severamente ou se será apenas vitimizado para servir de mártir e manter acesa a causa golpista. Infelizmente, é a segunda opção que se desenha.
Enquanto o julgamento decorria, na casa legislativa ao lado, com ampla margem de votos, era aprovado um novo regulamento para as disputas eleitorais, abrindo a porteira para todo tipo de fraude e manipulação do processo eleitoral. O Senado adiou a iniciativa, mas o fato demonstra que a república bananeira não descansa em serviço.
Ou seja, “tudo como dantes no quartel de abrantes”. Ou, tudo na mesma pasmaceira na república bananeira. As condições que nos mantêm atrelados ao passado seguirão intactas, ao que tudo indica. O governo segue sitiado, com a política econômica submissa ao aval dos Faria Limers, enquanto tenta emplacar programas sociais compensatórios. Nada de mudanças estruturais.
Difícil a situação do Brasil. Enquanto não reconhecermos e aceitarmos o fato de que somos uma república bananeira, não sairemos desse lodo no qual estamos atolados, não iremos superar essa nossa triste situação.
A psiquiatra Kubler-Ross concebeu uma teoria do luto em que a superação de algo doloroso passava pela vivência de cinco estágios emocionais, não necessariamente sequenciais: negação – raiva – negociação – depressão – aceitação. Comportamentos facilmente identificáveis em que se envolve no embate político. Reconhecer uma realidade desagradável é a última etapa para poder superá-la.
Como já dissemos, é preciso desbanananificar o Brasil. O desafio é descobrir como fazer isso.

SINAL AMARELO
Numa república bananeira – e nós somos a maior do mundo – sempre que uma liderança minimamente progressista é eleita, ela tem que governar em permanente estado de sítio. Para se manter no poder e implementar algumas políticas públicas de seu programa de governo, há que se fazer inúmeras e frequentes concessões. Há sempre uma linha vermelha que, se ultrapassada, dá início a articulações golpistas e/ou sabotagens externas. Historicamente sempre foi assim.
A decisão judicial que absolveu Dilma das acusações que a removeram da Presidência provocou uma resposta imediata da elite bananeira. Em menos de 24 horas os editoriais dos maiores jornais do país, redigidos às pressas, transbordando bílis, refutaram veementemente a ilegalidade do impeachment. Foi o recado das elites:”-Demos um golpe sim, e daremos de novo se o consideramos conveniente para os nossos interesses”. Este é o claro subtexto dos editoriais. O recado-ameaça da nossa elite golpista.
Já sabemos que uma tentativa de golpe militar foi tramada para o 8 de janeiro passado. Uma golpe em que todo o cuidado foi tomado para que não aparecessem as digitais dos comandantes militares. Conforme as investigações avançam, mais isso fica claro. Ao que tudo indica, era uma operação dos Destacamentos Operacionais de Forças Especiais (DOFEsp), treinados para atuar em cenários de conflitos políticos internos, que envolveram os chamados “Kids pretos”. Difícil de acreditar que os generais desconheciam essa movimentação.
Aparentemente, eles tinham a certeza de que, diante do caos produzido, seria criada uma situação que exigiria a convocação dos militares para uma operação de Garantia da Lei e da Ordem – GLO. Com a faca e o queijo na mão, eles poderiam quebrar resistências internas, tomar o controle do país e ainda teriam argumentos para se defender da acusação de golpismo perante o mundo. Graças a lucidez de Lula e Dino, que não morderam a isca, o plano golpista gorou. Os detalhes dessa trama só conheceremos daqui a alguns anos, provavelmente.
Pra nossa sorte, mais uma vez a bomba explodiu no colo dos militares. E enquanto vai sendo revelada uma quantidade imensa de cuecas verde-oliva manchadas de batom, os comandantes militares se empenham numa “operação abafa”, com direito a chantagens de todo tipo. Terão que sacrificar alguns anéis para preservarem os dedos. Para eles bastará preservar o status quo da instituição FFAA e da alta oficialidade, ainda que com uma reputação um tanto esfolada e a moral esfarrapada.
Dessa forma, o golpismo da milicada bananeira prosseguirá vivo, à espera de uma nova oportunidade para emergir.
O problema maior é que há uma perigosa tempestade em formação. Ela vem de fora e o tempo é muito curto para se preparar para ela.
Não podemos analisar a situação do Brasil sem observar o contexto geopolítico em que estamos inseridos, o da resistência dos EUA em ceder espaços de seu domínio imperial. O protagonismo de Lula está assumindo em relação ao BRICS – explorando as oportunidades que a “geometria variável” oferece para obter vantagens econômicas para o Brasil – talvez tenha um preço caro a ser pago num futuro próximo.
Sabemos que o Império norteamericano sempre considerou a América Latina como um quintal deles. Há um longo histórico de intervenções armadas, golpes patrocinados e assassinatos de lideranças políticas no continente. Com o acirramento das disputas com a China e a Rússia, eles não tardarão em colocar as suas garras à mostra novamente. Ainda mais com o cenário de uma guerra mundial que se delineia, que talvez se constitua numa soma de conflitos regionais (Ucrânia, países do Sahel, Oriente Médio, Pacífico sul e outros potenciais cenários explosivos), já que um conflito direto entre as superpotências nucleares aniquilaria a humanidade.
Se Trump tivesse sido reeleito, talvez nossas eleições tivessem tido um outro desfecho. Fomos momentaneamente poupados por uma conjuntura política nos EUA extremamente fugaz. Os Democratas – os mesmos que implementaram a espionagem e a guerra híbrida contra o governo Dilma – mandaram um recado para as nossas elites e seus serviçais armados de que não dariam apoio a um golpe. Não interessava a eles ter um aliado de Trump por aqui nesse momento. Tanto que cobraram “gratidão” do governo Lula por esse gesto, pois esperavam um alinhamento automático e submisso na condenação da invasão russa.
Passadas as eleições norte-americanas, seja qual for o seu resultado, a opção em aprofundar as relações com o BRICS nos colocará novamente na alça de mira do Tio Sam. A desdolarização do comércio internacional é uma pedra no sapato dos EUA e ameaça seriamente a sua já abalada hegemonia.
A embaixadora dos EUA no Brasil, com a dubiedade típica da linguagem diplomática, deixou mais um recado. Ou seria uma ameaça? Até o ex-presidente francês Sarkozy, em seu livro de memórias, revelou o que os incautos fingem ignorar: Os EUA jamais permitirão que a nossa soberania ameaçe a hegemonia econômica deles. Para a nossa elite bananeira e seus generais sabulos, lamber as botas do Tio Sam não causa espécie.

Para piorar a situação, há um risco elevadíssimo de vitória da extrema-direita na Argentina, seja com a ultraliberal Bullrich, seja com Milei (um fascista alucinado). Nosso potencial aliado caminha para se tornar um vizinho indigesto. E, onde estão sendo eleitas lideranças progressistas (Guatemala, Honduras, Colômbia, talvez o Equador) o cerco aos governantes é contínuo. A guerra híbrida é permanente.
Não somos uma potência, nem econômica, nem militar. Nosso único trunfo é a gestão da Amazônia, peça fundamental da questão climática que hoje se tornou uma emergência global. Graças a estupidez da nossa elite predadora e seus guardiões militares, que deram provas fartas de incompetência para gerir esse território estratégico, herdamos esse ativo. É preciso usá-lo com sabedoria.
A derrota eleitoral do fascismo no Brasil tem um alfa e um ômega: chama-se Lula. Dificilmente ela teria ocorrido sem a liderança dele. A capacidade de mobilização das nossas esquerdas continua a dar sinais de debilidade, a ponto do próprio Lula reclamar publicamente da falta desse suporte. Mais do que ninguém, ele sabe o quanto isso é vital para a governabilidade.
O tempo é curto. Ou a sociedade brasileira é capaz de se articular e mobilizar a população ou, como vaticina o título de um romance, “não veremos país nenhum”.

É preciso desbananificar o Brasil urgentemente. As próximas publicações deste blog terão a pretensão de contribuir humildemente neste sentido.
É livre a reprodução, parcial ou integral, nos termos da licença CC BY-SA
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