Muita expectativa sobre a reunião de Lula com Trump na Malásia neste final de semana. Não pelo que sairá de concreto dessa conversa, mas pelo que ela sinalizará. A grande imprensa – porta-voz da elite econômica do país – se dedicará a cobrir o que ela chama de “normalização das relações” entre os dois países.
Na aparência, o debate será sobre tarifas, investimentos, regulação econômica. A nossa elite neocolonial não tem projeto para o país, nada além da vontade de multiplicar os seus próprios ganhos. Quer apenas fazer bons negócios com o mercado norte-americano. Na essência, o que realmente estará em jogo é até que ponto o governo brasileiro aceitará abrir mão de sua soberania. E até que ponto os EUA nos querem submetidos à sua esfera de influência.
Não teremos respostas claras nem definitivas. Apenas declarações diplomáticas escorregadias, mensagens subliminares, ameaças dissimuladas, promessas de concessões que talvez nunca sejam cumpridas, saudações cordiais mais falsas do que nota de 3 dólares.
Mas é possível arriscar um resultado: Lula poderá capitalizar uma trégua na guerra tarifária, reafirmar que não é inimigo do ocidente, que Brasil e EUA sempre foram ótimos parceiros e não há porque deixar de continuar a ser assim. E Trump, em seu transtorno narcísico, poderá capitalizar como uma vitória o movimento agressivo que fez. Dirá o que sempre tem dito: ninguém quer ser inimigo dos EUA e todos tem que aceitar negociar nos termos deles. Provavelmente ambos terão louros para exibir para as suas plateias.
Declarações tão elogiosas quanto cínicas não esconderão o fato de que o Império decadente do norte jogará pesado para garantir que seus testas de ferro controlem o que consideram o seu quintal. No próximo ano, em razão das eleições para a presidência e parlamento, viveremos o ápice do nosso embate com o neofascismo e o novo projeto de Reich (o MAGA).
Bom lembrar que estas conversas na Malásia irão ocorrer sob a sombra uma ação cirúrgica iminente na Venezuela, com o possível assassinato de Maduro e outras lideranças locais que a CIA identificar como alvos relevantes. Dessa forma os EUA creem que provocarão uma reorganização interna do núcleo de poder e buscarão um novo interlocutor que se ajoelhe. E mandarão um recado aos que ousam defender a soberania nacional de seus países na América Latina.
Então pode ser que o encontro Lula-Trump não termine neste falso clima de “é namoro ou amizade”. Nos últimos dias começou uma escalada de agressão sem tamanho ao presidente da Colômbia, cujas eleições serão em maio (as do Brasil em outubro). Talvez ainda não seja agora mas, em algum momento, o big stick se voltará contra o Brasil.
Por isso os quinta-colunas do patropi estão alvoroçados. Mesmo que um tanto frustrados por não terem conseguido a liberdade de seu líder, trabalham obstinadamente para dar um novo golpe na democracia. O ano eleitoral dará o cenário que os neofascistas desejam. O apoio que não tiveram no 8 de janeiro de 2024 poderá vir no ano que vem.
As movimentações estão adiantadas. O Centrão se desgarrou de vez da base de apoio do governo e vai se alinhar com os neofascistas. Os clãs de parlamentares que dependem da miséria do povo – para manter seus feudos eleitorais com políticas assistencialistas e demagógicas – escolheram o lado que melhor lhes convêm. E trabalham agora para derrotar qualquer pauta legislativa que turbine programas sociais.
O STF virou o grande alvo da disputa, antes mesmo da definição da nova composição do Senado, casa onde o neofascismo pretende conquistar a hegemonia na próxima legislatura. O autodeclarado neoiluminista pediu pra sair. Apresentou, obviamente, uma desculpa esfarrapada cheia de pompa. O fato é que precisa recuperar o visto para tocar seus empreendimentos nos EUA. Jogada claramente articulada. Não por acaso, o candidato a Carl Schmitt dos trópicos, após tirar a máscara e expor o seu alinhamento ao neofascismo, pediu para mudar de turma. Como bom arrivista que sempre foi, dispensa a dissimulação na hora que lhe convém. E assim vai garantir uma maioria neofascista em metade do STF. Além disso, quando do julgamento dos recursos, poderá fazer um novo teatro em defesa de seu protegido. Por razões que desconhecemos (vistos?), os colegas de toga cederam (poderiam ter impedido). E a aprovação do novo nome para o STF tende a ser tensa.
O ano de 2026 vai ser pura pancadaria.









Como já foi dito, Trump é um sujeito que sofre de um grave transtorno narcísico. Então todos os seus atos e palavras devem ser interpretadas primeiramente por este prisma. Câmeras flagraram o presidente dos EUA assistindo atentamente o discurso do presidente brasileiro. Um discurso altivo, insubmisso, que não deixou pedra sobre pedra. Nem mesmo diante de sanções e reiteradas ameaças da maior potência econômica e militar do globo. Lula foi a voz de todo o Sul Global. O que seria um aperto de mão protocolar, virou um abraço efusivo seguido de uma mensagem improvisada, dizendo que gostou dele, que rolou uma química, que o convidou para um conversa.
Certamente será uma armadilha perigosíssima. “Gostei de você” e “ rolou uma química”, são frases de abusadores antes de praticar um estupro. Uma breve tentativa de sedução a partir de uma posição de poder, que precede o ato violento em caso de não submissão. E Trump é um abusador, coisa que o abafado caso Epstein comprova.
È presumível que Trump tenha ficado impressionado com o tamanho da ousadia e da coragem expressa no discurso de Lula. Certamente o presidente ganhou o respeito dele. Trump sabe que tem recursos ao seu alcance – militares, econômicos e de psi-op – que podem provocar um caos no Brasil, mesmo que com alto custo político. E sabe que nós sabemos disso. Ainda assim, o governo Lula não se enverga. Talvez Trump tenha até percebido a diferença da postura de seus aliados no Brasil, um bando de covardes e sabujos. Mas ele precisa de capachos locais. Não deve abandoná-los na beira da estrada. Pelo menos até que encontre outros da confiança de seus asseclas.
Trump tem margem de recuo. Há setores econômicos poderosos que estão sendo prejudicados nos EUA. A questão é o que ele exigirá em troca. Porque ele jamais aceitará normalizar as relações com o Brasil sem que possa capitalizar uma vitória. Se o Reino Unido e a União Europeia se ajoelharam, porque não o Brasil, esse abusado?
Do ponto de vista econômico, o que deve estar na mesa é a participação na exploração dos nossos recursos estratégicos e a regulação das bigtechs, que são temas vitais para o MAGA. Do ponto de vista geopolítico, os EUA desejam o enfraquecimento dos nossos laços com o BRICS, pois o objetivo é a retomada do que eles consideram o seu “quintal”. Mas sabem que não podem exigir isso de imediato, dada a dimensão das relações econômicas envolvidas.
Já a familicia não será moeda de troca. Mas ela poderá testemunhar o começo do abandono da sua causa, de forma lenta, gradual e progressiva.
Seja como for, o mais hábil negociador da história do Brasil terá, possivelmente, o seu maior desafio. A conferir.