Saldo da primeira batalha da guerra

Terminou a primeira batalha da guerra pela independência soberana do Brasil. Não sabemos como os historiadores do futuro irão denominar o embate que estamos vivendo nos próximos anos. O certo é que estamos em uma guerra para nos emancipar do quintal dos EUA. E que foi deflagrada por eles. Pelo visto, manter o domínio imperial sobre as nações da América Latina neste momento é uma questão “existencial” para os EUA (do ponto de vista geopolítico do conceito). A nossa adesão ao BRICS é inaceitável para eles.

O tigre, que para nós não é de papel, rugiu e mostrou suas garras. Porém fez um ataque menos agressivo do que o anunciado. Um recuo que se deu não por conta dos protestos brasileiros, mas pelas queixas domésticas de alguns setores econômicos nos EUA. Se não atendidas, seria um baita tiro no próprio pé.

De forma apressada, alguns estão comemorando com os já famosos memes TACO (Trump Always Chickens Out -Trump sempre amarela). Pelo que se diz, esse tipo de deboche irritaria profundamente o presidente norteamericano.

Os memes nos divertem, mas não se deve perder o foco. A guerra apenas começou. Vamos sorrir, porque o riso é uma forma de desafiar e ridicularizar opressores. Porém ainda não temos razões para comemorações efusivas. Até porque os recuos são parte da estratégia de negociação do diabo laranja, pois não se retorna ao ponto de partida e sim algumas casas à frente (o que já é um ganho pra ele).

A punição aos magistrados do STF é uma mensagem clara: vocês não podem nos desafiar, não podem nos vencer. Lembra a frase de uma série trash de ficção-científica: “– vocês serão assimilados, é inútil resistir”. Não há resposta diplomática para este tipo de agressão. Não reconhecem nossa soberania, nem do ponto de vista político, nem econômico e nem cultural.

Na verdade, não há nenhuma novidade nisso. Esse sempre foi o pensamento do establishment norte americano em relação a nós. Só que raramente foi demonstrado assim, de forma tão explícita e desavergonhada. O que mudou é que agora eles tem um presidente com transtorno narcísico grave, que faz questão de ostentar as ideias das quais se orgulha, a essência do movimento MAGA.

A familícia Bolzo e seus seguidores estão radiantes. Ignoram que servem apenas como uma bucha de canhão, um instrumento vulgar a serviço de outros interesses. São os idiotas úteis do momento. Não haverá declaração de amor ou de fidelidade canina que os livrem de serem descartados num futuro próximo, quando já tiverem servido ao papel que lhes foi reservado.

A imprensa, o governo, a classe política, todos apelam à negociação. Porém, numa guerra, não há negociação pelos canais convencionais. Só conversas com interlocutores intermediários. É o que vem acontecendo, com os grupos econômicos sediados nos EUA que se sentiram prejudicados. Pelo menos é isso o que a imprensa nos informa.

Relevante foi a reunião que ocorreu nessa semana em Brasília, na qual o vice-presidente recebeu representantes da Meta, Google, Amazon, Apple, Visa e Expedia, acompanhados de um enviado da Secretaria de Comércio dos Estados Unidos. Na agenda pública, apenas temas genéricos: segurança jurídica, inovação tecnológica e ambiente regulatório. Em outras palavras, Alckmin ouviu os pleitos (ou ameaças veladas) das empresas dos oligarcas que sustentam o projeto MAGA do Trump.

Não é dificil imaginar o que querem as bigtechs: mínima regulação e portas (e pernas) abertas para ganhos financeiros em nosso país.

Enfim, aguardemos a próxima batalha. E o ataque virá na forma de guerra híbrida, com CIA, NSA e bigtechs trabalhando juntas. Vão jogar bombas pesadas até a eleição de 2026. As questões comerciais serão meras escaramuças. A prioridade deles é eleger um capacho para presidir o nosso país. Não faltam candidatos.

Enfim, apesar da coragem política, o governo brasileiro tem poucas cartas na manga. E as bigtechs tem todas as nossas informações estratégicas na “nuvem” que elas controlam.

A sociedade pode ajudar. Se não temos alternativas no curto prazo para substituir nossas redes sociais, podemos ao menos boicotar as operadoras de cartões bancários deles. As mudanças trazidas pelo PIX eles terão de engolir. E outros boicotes a setores sensíveis podem ser considerados. A nossa elite neocolonial detesta o anti-americanismo e não vai alimentar essa forma de resistência. Nem os partidos do governo, reféns do teatro da “negociação profissional e diplomática”.

Enfim, é uma guerra muito difícil de vencermos. Mal comparando, vale lembrar que também não era fácil para os veitcongs. Há que se explorar as contradições e conflitos internos no território do inimigo. Porém, com criatividade e disposição para resistir, nada é impossível.

A PRAGA QUE NOS AMEAÇA

De acordo com a EMBRAPA, existem muitas pragas que podem causar estragos imensos nas plantações de Banana: Sigatoka-negra, Sigatoka-amarela, Mal-do-Panamá, Murcha bacteriana, Moleque-da-bananeira e a Falsa-broca-da-bananeira. 

A nossa república bananeira também sofre com pragas. Nesse momento, a praga “molecagem-da-familícia-Bolzo” está a nos contaminar e coloca em risco o futuro do país.

Tão grave e danosa é esta praga que até mesmo as nossas elites neocoloniais se indignaram. Através dos editoriais de seus jornalões bradaram as seguintes ideias, que resumimos numa livre interpretação-síntese do conteúdo dos editoriais:

Submissão sim (deixemos o BRICS, vá lá) mas prejuízos econômicos só pra salvar um imbecil não admitimos”. “Ok, ele nos foi útil num passado recente, mas já o descartamos porque, sendo o idiota que é, hoje nos traz mais problemas que oportunidades”. “Já o Lula tem que deixar esse discurso ideológico de soberania, se ajoelhar e negociar para que não soframos maiores prejuízos”. “Somos colônia mesmo, e daí? Podemos continuar a ser felizes assim, com nossos lucros em alta e a desigualdade social que sempre nos assolou. Queremos voltar ao nosso histórico normal!”

Em busca de uma solução eleitoral anti-Lula, os editoriais exortaram os governadores que são pré-candidatos à presidência a abandonar o bolzofascismo. Mas os governadores relutam. E não é sem razão. Sabem que o legado de votos da familícia – ao menos 1/3 do eleitorado – assegura uma vaga no segundo turno e/ou uma cadeira no Senado.

Em recente evento de um badalado banco de investimentos, estes mesmos governadores presidenciáveis, sob aplausos fartos, afinaram o discurso, afirmando que a culpa do tarifaço é por conta das escolhas “ideológicas” do atual governo. Curiosamente, esse mesmo banco de investimentos faturou muitos milhões nas estranhas movimentações do mercado de dólar nas horas que se seguiram ao anúncio do tarifaço. Sem ideologia, claro…

Os jornalões também começaram a destacar as concessões feitas pelos países tarifados por Trump: Vietnã, Filipinas, Indonésia, Japão e a União Europeia. O subtexto é: “ora, se eles tiveram que se ajoelhar, porque nós não faremos o mesmo?”. Nessa lógica subalterna teríamos que ceder em busca de um acordo “menos pior”.

O problema é que, no nosso caso, o que Trump busca não é somente vantagem comercial. Ele quer submissão geopolítica total. Pode até ser que ele aceite negociar pontualmente algumas tarifas. Mas vai manter a espada de Dâmocles sobre as nossas cabeças. Não há nenhuma indicação de que o diabo laranja vai aceitar que seja lançado ao mar o seu lambe-botas mor. Deverá intensificar as represálias contra magistrados e outras autoridades brasileiras. Vai dobrar a aposta. E vai manter as ações de desestabilização da nossa economia de forma a tumultuar cenário eleitoral em benefício de seus fiéis vassalos (que, no íntimo, deve desprezar).

Conforme o andar da carruagem, a intolerância da elite com a familícia logo vai arrefecer.

Os deputados do centrão, por enquanto, observam a evolução do embate, se preservando. Não querem se precipitar e se arriscar a “abraçar um afogado”. A única que coisa importante para eles são os bilhões do orçamento para manusear livremente em beneficio de seus clãs e redutos eleitorais. Para onde a elite neocolonial for, eles irão.

Por fim, discretamente, nestes mesmos dias os militares mandaram os seus recadinhos. Nas entrelinhas deixaram claro que serão sempre fiéis ao Comando Militar Sul dos EUA, ao qual sempre foram ideológica e intelectualmente subordinados. Em seu patriotismo reverso (submisso à outra pátria) estão esperançosos de que o apoio que não veio ao golpe de 8 de janeiro de 2023 poderá vir numa oportunidade próxima, com o apoio do Diabo Laranja. Eles ainda são os mesmos golpistas, bolzofascistas em sua maioria.

Curiosamente, o ogronegócio, o setor econômico mais bolzofascista de todos, é o que enfrenta o maior dilema. O silêncio da China, o seu principal comprador, os incomoda. Em poucos anos poderão perder o seu maior cliente. Os chineses poderão investir na infraestrutura de agronegócio em países africanos em busca de alternativas (já há movimentos nesse sentido).

A realidade é uma só: Trump declarou guerra contra o Brasil. Nosso problema é que, militarmente, não temos como enfrentá-lo. Não só por não termos um arsenal bélico e tecnológico próprio. Mas porque temos forças armadas submissas e uma elite econômica subserviente.

Não temos grandes armas. Só a capacidade de sabotar e boicotar os agentes econômicos deles e de seus vassalos. E isso não é de responsabilidade dos partidos governantes, reféns de inúmeros condicionantes. Essa tarefa cabe à sociedade.

Será preciso disseminar um amplo, profundo e contundente sentimento anti-imperialista (ou melhor, anti-EUA, personificado no Trump) na sociedade brasileira.

Por hora, é a nossa única arma.

COMEÇA  A GRANDE GUERRA PATRIÓTICA

E  não é que o  jornalão paulistano colocou as quatro patas no chão? Depois de um breve surto nacionalista, com firme e ereta indignação diante do tarifaço imposto por Trump ao Brasil, a elite econômica da nossa república bananeira nos informa que vai jogar a toalha. Um novo editorial conclamou o Brasil a abandonar o BRICS. Surpresa zero. Nossa elite neocolonial rentista quer apenas sustentar os seus lucros pornográficos, mesmo que às custas de uma vida miserável para milhões de brasileiros. Perceberam que Trump não quer simplesmente rever as relações comerciais entre os países. Nunca houve qualquer intenção de negociar absolutamente nada. A diplomacia, nesse contexto, é reduzida a um mero teatro para afirmação de princípios. Importante, mas sem resultados práticos. O que Trump nos exige é submissão total, que abdiquemos da nossa soberania. E isso é inegociável.

 Por isso essa elite sugere que abandonemos o projeto do BRICS. Eles entendem perfeitamente o que, de fato, incomoda o império. Daí defendem que devemos abrir os braços – e as pernas – para o grande irmão do norte. Têm a esperança de que, dessa forma, tudo retorne à velha normalidade. Só que, com Trump, nada será como antes.

Trump acena que o fim da prossecução penal do líder de seus capachos é o único ato que poderá levá-lo a rever o tarifaço.  Falácia. Somente os ingênuos acreditam nisso. Trump nos quer de joelhos, e usa a familícia canalha como instrumento de chantagem. Porém isso é somente a ponta de um ariete para arrebentar com as nossas defesas.

O perigo não está  na subserviência da nossa elite econômica. Nem no falso patriotismo do bolzofascismo, que também infesta as instituições militares, completamente submissas ao Comando Militar Sul dos EUA e conformadas com a dependência tecnológica de outras nações.

 Não estamos mais diante de um Golpe Tabajara. Agora estamos assistindo aos primeiros passos da escalada de uma agressão estrangeira, vindo da maior potência militar do globo. E, como todo interventor estrangeiro, Trump aposta na rendição dos covardes. Sabe que sempre aparecem os candidatos à testa de ferro, vassalos traidores da pátria dispostos a colaborar com a ocupação e fazer o trabalho sujo. Não faltarão oficiais militares candidatos ao posto de “General Pétain”, dispostos a servirem capachos para uma potência estrangeira (que cinicamente chamarão de “aliada”). E uma penca de magistrados cúmplices, prontos a “matar no peito” qualquer contestação. Sem falar dos muitos deputados e senadores que se vendem por qualquer michê na hora da xepa.

Uma vez rompida a resistência, virá a plena liberdade das bigtechs, a explosão do nosso sistema PIX para a entrada das fintechs dos EUA,  a exigência de privatização total dos nossos recursos minerais estratégicos (petróleo e terras raras) e uma base militar gringa em nosso território. Sobrarão presidenciáveis com o boné MAGA para levar adiante essa vergonhosa submissão a um país estrangeiro.

O Brasil está sob ataque. Somos  a nação que mais ameaça a hegemonia dos EUA no que eles consideram o seu quintal (a América Latina). O ataque ao nosso país está apenas começando. Será uma guerra suja. O inimigo tem um poderio econômico, tecnológico, informático e militar incomparavelmente superior ao nosso. Não duvidem de mortes inesperadas e suspeitas, nem de improváveis acidentes trágicos (tipo a explosão do programa espacial brasileiro em 2003).

 O tarifaço que se anuncia, que poderá ser incrementado para 100% em breve, tem por objetivo debilitar a nossa economia (frear o crescimento e alimentar a inflação) para insuflar a insatisfação popular. É assim que Trump quer ressuscitar o bolzofascismo nas nossas eleições em 2026. Todo cuidado será pouco porque, sabidamente, nossa elite econômica é capaz de voltar a abraçar o bolzofascismo no primeiro “peteleco” que levar. Só não quer a figura do Bolzo nem de seus filhos abjetos. Por isso implora para que o seu queridinho governador de São Paulo se desvincule da criatura que o pariu.

Só nos resta uma estratégia: a guerra de guerrilhas. Não no sentido mili  tar, obviamente. Mas de resistir no campo econômico e cultural, na esfera comunicacional, com criatividade, astúcia, boicotes e sabotagens. E apostar no desgaste do inimigo dentro de suas próprias fronteiras com os seus cidadãos e empresas.

 O governo brasileiro ficará de mãos atadas, refém do lobby de uma elite econômica servil. Talvez nem seja capaz de criar uma sala de situação (ou de crise), o que seria de se esperar já que estamos sob ataque. A iniciativa dessa “guerrilha” caberá à sociedade civil. Algumas sugestões:

– Boicotar as bandeiras Visa e Mastercard, alertar que elas querem faturar em cima do nosso PIX.  Incentivar a adesão ao ELO e, assim que disponível, à bandeira UnionPay;

– Identificar grupos econômicos norte americanos que podem ser objeto de boicote em nosso país, preferencialmente os trumpistas assumidos;

– Lançar uma campanha de denúncias sobre a quantidade de fraudes e propagandas enganosas que lesam o consumidor difundidas irresponsavelmente nas redes da META, caprichando no alarmismo. É preciso destruir a credibilidade dos anúncios veiculados no Instagram e Facebook. Alertar que comprar produtos e serviços ofertados nelas é arriscado, inclusive para a privacidade dos cidadãos. Não faltam testemunhos para dar visibilidade a essas denúncias;

– Repercutir à exaustão os casos mais dramáticos de imigrantes brasileiros expulsos por Trump;

– Incentivar o uso das redes sociais alternativas;

– Radicalizar o uso do nacionalismo. Colar na testa dos bolzofascistas a pecha de traidores da pátria. Viralizar o Samba da Caprichosos de Pilares de 1986: “Brazil Com Z, Não Seremos Jamais, Ou Seremos?”

– Inundar as redes com memes tipo “Donald Trump e seus miquinhos amestrados”.

 Enfim, estas são apenas algumas propostas preliminares. A guerra já foi iniciada. Quanto mais tardar a reação, mais difícil se tornará a nossa resistência.

 Sobre a ineficácia de uma saída diplomática, além do que já foi dito acima, há um dado que não podemos ignorar. Estaremos guerreando contra um governante que, além de mau caráter, sofre de graves transtornos psíquicos. Em 2017, na Universidade de Yale, um grupo de psiquiatras criou o movimento Duty to Warn (Dever de Avisar). Publicaram o livro “The Dangerous Case of Donald Trump” em que apresentam cientificamente um diagnóstico clínico de Donald Trump: uma combinação de transtornos psíquicos que inclui um narcisismo doentio, fortes traços de sociopatia e personalidade paranóica. Ou seja, um sujeito que não sabe perder. Que tende sempre a dobrar a aposta. Só que isso pode ter repercussões muito negativas dentro dos EUA. Vale lembrar a vitória do Vietnã: a derrota dos norte-americanos começou dentro do seu próprio país. Trump tem que cair, antes que seja tarde.

 Enfim, viveremos em breve tempos difíceis, quiçá trágicos.

 

Bananeira na encruzilhada

O Brasil inteiro acaba de descobrir, e pelos editoriais dos jornalões, que são os diários oficiais da elite econômica nacional, que até uma república bananeira tem seus limites.

Que as nossas elites sempre aceitaram que o Brasil fosse inserido numa ordem econômica mundial de forma submissa, ocupando eternamente um papel periférico, isso sempre soubemos. Obviamente, desde que o fluxo de dinheiro para os cofres dessa mesma elite se mantivesse constante, ainda que às custas de uma brutal desigualdade na distribuição das riquezas geradas e da superexploração da população mais vulnerável.

Foi preciso que uma família de políticos medíocres se superassem em sua própria burrice e estupidez para que viessem à tona os limites que existem para esta submissão.

É inacreditável, mas o Bolzo conseguiu ficar politicamente inviabilizado. Foi capaz desta proeza. Nem que prometa colocar o Campos Neto de Ministro da Fazenda e indicados da Faria Lima nos Ministérios. Acabou, porra! É o recado que as elites do país passam através dos editoriais dos seus jornalões. Não é mais uma opção diante de uma “escolha difícil”. Mais do que isso: os jornalões passaram um recado extensivo aos presidenciáveis que buscam herdar os votos da famíglia Bolzo. Avisaram-os de que correm o risco de dar um abraço num afogado. Os que quiserem o apoio da elite para as suas candidaturas terão que concordar em jogar o clã do Bolzo na vala. Até porque a cadeia os espera. Pode ser uma prisão domiciliar ou um generoso asilo político na Disneyworld land, lugar mais adequado para dar abrigo a um bando de patetas.

Não por acaso o neofascismo brasileiro está em transe, à beira de um ataque de nervos, sem saber muito bem o que fazer. Mas é preciso muita calma nessa hora. No dizer maquiavélico,é hora de se ter a virtu necessária para aproveitar um momento de fortuna. Sem grandes ilusões.

A bravata de Trump foi uma cena teatral para enviar uma mensagem clara: não vai permitir que ninguém no que ele considera como o  seu quintal irá “cantar de galo”.  A defesa do Bolzo foi um balão de ensaio, um pretexto para manter excitadas as bases do neofascismo internacional. Concretamente, não há nenhuma racionalidade técnica no tarifaço anunciado. Causou estupor até na Câmara de Comércio deles (U.S. Chamber of Commerce) que antevê claros prejuízos para as cadeias produtivas deles. Portanto, é uma mera cortina de fumaça. Se engana quem diz estarmos diante de meras atitudes tresloucadas.

 

É preciso ficar muito atento ao comportamento da elite neocolonial. Após ser tomada de um breve arroubo nacionalista, suplicou ao governo que busque uma negociação com os EUA. Trump esperava por isso. Que lhe fosse oferecido um pretexto para o recuo. O que vem em seguida é o que importa.

O primeiro sinal já veio: Trump encomendou uma investigação comercial à USTR (o poderoso Escritório do Representante de Comércio dos EUA). Eles têm em mão a famigerada lista do Sistema Geral de Preferências e a “Special 301”, que oferecem benefícios tarifários para países em desenvolvimento, desde que respeitem a propriedade intelectual dos titulares norte americanos (patentes,marcas e direito autoral)  Historicamente, é um dos principais instrumentos de chantagem usados pelos EUA. É por esse meio que virá a pressão, que sempre contou com grandes aliados na CNI, FIESP, CNA e assemelhados. O nacionalismo deles é de fachada. Não se importam com a nossa inserção submissa no comércio internacional desde que seus ganhos sejam preservados.

Que ninguém se surpreenda caso ressurjam com vigor as queixas sobre o “custo Brasil”. Talvez ele volte a ser usado para golpear as bandeiras de justiça tributária, direitos trabalhistas e do fim da escala 6 x1. Estas bandeiras poderão ser acusadas de causar dificuldades competitivas no novo contexto comercial criado por Trump. Uma pesquisa encomendada para fragilizar o “nós contra eles”, o “pobres contra ricos” já está sendo estampada nos jornalões.

Mas com o devido cuidado para que os que defendem a soberania nacional não capitalizem o episódio como uma vitória.  E será bom tomar cuidado com o uso do ataque bizarro ao PIX. Talvez seja uma armadilha plantada com a intenção de reabrir um episódio recente que deixou feridas no governo. Os meios de pagamento das bigtechs  (Google pay, Whatsapp pay) tomaram uma bela rasteira com o PIX e estão com sede de vingança. É bom ficar atento.

A luta de classes e antiimperialista é complexa. Mas não podemos nos desviar dela. Enfim, há uma janela de oportunidade aberta. Resta ter a sabedoria para tirar proveito dela em benefício do povo brasileiro.

 

BROTHER SAM ENTRA NA GUERRA DAS BANANAS

Como era de se esperar, Trump saiu explicitamente em defesa do Bolzo. Não que ele  tenha grande apreço pelo ex-presidente. Trump sabe que ele não passa de um idiota sabujo, um vassalo imbecil. Porém ele também sabe que o Bolzo pode ser um ativo útil para ser usado em benefício dos interesses dos EUA, pois ele ainda tem significativa base eleitoral no Brasil. O presidente dos EUA  age como um jogador de pôquer. Blefa e dissimula, para tirar a atenção de seus reais movimentos e intenções.

Cabe destacar que o momento para essa manifestação bizarra do governo norte-americano foi claramente planejado: logo após a reunião da cúpula do BRICS realizada no Brasil. O BRICS, capitaneado pela China, é hoje a grande ameaça à supremacia norte-americana. Para alguns analistas, trata-se de uma guerra já perdida para o Tio Sam. Porém o gigante vai espernear até o fim, vai vender caro a sua derrota. O problema é que os países periféricos sofrerão as piores consequências. Nós entre eles.

O Panamá, coitado, já foi subjugado.

O blá-blá-blá non sense da cartinha do Trump é puro teatro. O recado é claro: se o Brasil não se submeter aos interesses dos EUA, será sabotado por todos os meios disponíveis: desde sanções comerciais e tarifárias abertas, até ações do submundo da guerra híbrida, com a CIA e a NSA atuando a todo vapor. Vejam só: quase toda infraestrutura digital do governo está nas mãos das bigtechs (Microsoft, Google, etc).  Elas têm acesso em suas “nuvens” a muita documentação estratégica produzida pelo governo.  Não faltará material para sabotagem. A espionagem norte-americana no governo Dilma, que deu a base para a lava-jato, vai parecer “fichinha”.

As bravatas do Trump visam negociar em posição de força para impor seus interesses. Ele já afirmou que deseja bases militares em pontos do nosso território que utilizaram na Segunda Guerra Mundial (Natal e Fernando de Noronha).  Na época, sem ter como resistir, Vargas negociou em troca o investimento na nossa indústria de base. Agora Trump se acha no direito de cobrar essa conta.

O fato é que, para os EUA, um país da dimensão do Brasil, com os recursos naturais que possui, pode se tornar um competidor perigoso caso se desenvolva de forma soberana. Passada a segunda guerra, a pressão dos EUA para manter o país asfixiado foi contínua. Cooptou a elite econômica e militar local com o terror da “guerra fria” e a suposta ameaça do comunismo.   A criação da Petrobrás e da Eletrobrás custou a vida de Vargas. A industrialização do país foi dificultada e mesmo Juscelino Kubitschek não teve vida fácil. Até a ditadura militar encontrou resistências. O tal “milagre econômico” se deu de forma submissa, com dependência de capital externo e sem transferência de tecnologia. Teve que negociar com a Alemanha o programa nuclear. Mais recentemente, a cooperação com a França para desenvolver a tecnologia de propulsão nuclear em submarinos sofreu pressões pesadas, como o próprio ex-presidente francês admitiu em sua biografia. Tivemos ainda um “misterioso” acidente no programa aeroespacial (inovadores foguetes com combustível sólido), com a morte dos principais cientistas (o recente assassinato de cientistas iranianos por Israel talvez tenha essa inspiração), seguido da entrega da base de Alcântara para os EUA pelo Bolzo.  E ainda houve a pressão para reverter a compra de caças suecos por causa da transferência de tecnologia. Isso entre muitos outros exemplos (a lava-jato é um capítulo à parte).

Enfim, os EUA sempre farão de tudo para impedir que o Brasil tenha um desenvolvimento soberano e se torne uma potência econômica e tecnológica. Para eles, somos o seu quintal, destinado a ocupar uma posição periférica e dependente. Um quintal que foi continuamente objeto de golpes e ações desestabilizadoras.

Os EUA, quando estimularam o desenvolvimento de algum país ou região, foi somente para afastá-los da influência soviética. O Plano Marshall foi o que permitiu o Estado de bem estar social na Europa. A reconstrução do Japão e a ascensão da Coréia do Sul seguiu o mesmo script. Com a queda da URSS, os EUA sentaram nos louros da vitória. Arrogantes, subestimaram a revolução silenciosa que estava sendo gestada na China.

A China está se desenvolvendo de forma muito interessante para os países parceiros: oferece fortes investimentos em infraestruturas nacionais que servem de rotas para o escoamento de seus produtos pelo mundo. Oferece ganhos mútuos. Dessa forma o BRICS se tornou uma imensa ameaça para o Tio Sam. E o Brasil é um dos elos mais fracos dessa aliança (ao lado da África do Sul). Por isso será alvo de ataques impiedosos.

O ano de 2026 será difícil. Teremos uma amostra do que virá já nesse segundo semestre, quando iremos testemunhar as ações desestabilizadoras nas eleições do Chile, Colômbia, Bolívia e Honduras, sob a batuta de Marc Rubio.

O governo brasileiro, preso à diplomacia de punhos de renda que caracteriza o Itamaraty, não irá além de declarações genéricas sobre soberania e autodeterminação e, talvez, acrescida de alguns arroubos retóricos do Presidente.

Só a sociedade organizada poderá oferecer alguma resistência. Está na hora de sacudir velhas bandeiras, retomar slogans – que alguns acham meio surrados – das velhas lutas anti-imperialistas. E não haverá anacronismo algum nisso. Será importante vincular a resistência às intervenções trumpianas com a pauta da luta de classes em nosso país, que hoje passa pelo fim da escala 6×1 e a exigência de justiça tributária. Se essa articulação for bem sucedida, fragilizando os quinta-colunas da elite política e econômica nacional, haverá chances de vitória.

Um fato a ser considerado com cuidado é a reação da elite brasileira (agronegócio, indústria, bancos) diante das ameaças trumpistas. A histórica submissão da dessa elite neocolonial, por pura opção de classe, está abalada ao vislumbrar graves riscos para os seus lucros. Os seus jornalões estão publicando editoriais e matérias que parecem manifestos de uma revolução burguesa.  Que ninguém se iluda que a suposta burguesia nacional irá despertar para a necessidade de que tenham um projeto de país inclusivo. Fica o alerta. A elite econômica brasileira não é vítima. Ela pariu o Bolzo. E está preparando um substituto similar, que apenas saiba se portar à mesa. É bom nunca esquecer disso.

Para nos inspirar, podemos relembrar versos do hino original dos Sandinistas: 

Los hijos de Sandino

ni se venden ni se rinden

luchamos contra el yankee

enemigo de la humanidad.

Bananeira em Transe

O Brasil, a maior república bananeira do mundo, cujas elites fazem de tudo para perpetuar essa condição, parece estar à beira de uma confrontação. Durante 13 anos as elites bananeiras aceitaram – meio que a contragosto – um governo com modesta inclinação para a justiça social. Porém elas logo se incomodaram e patrocinaram um golpe híbrido em forma de “impeachment” logo que viram uma oportunidade. Depois usaram o ‘lawfare‘ para impedir o retorno do governante anterior, mesmo às custas de abrir as portas do inferno para o político mais nauseabundo da história brasileira, em muito similar à descrição de Marx sobre Napoleão III :  “um chefe do lumpemproletariado, porque é nele que identifica maciçamente os interesses que persegue pessoalmente, reconhecendo, nessa escória, nesse dejeto, nesse refugo de todas as classes, a única classe na qual pode se apoiar incondicionalmente”.
Parte da elite bananeira letrada, um tanto envergonhada pela criatura tosca e seus asseclas deploráveis que pariram, aceitaram mais uma vez a eleição de um governo de orientação social. Muito mais por falta de alternativas, é bom que se diga. Porém, não sem antes garantir de que este novo governo ficaria sitiado desde o primeiro momento, sem margem para manobras ousadas, com uma governabilidade extremamente frágil. Um governo que, por muito pouco, quase não começou.  Após quatro anos alimentando serpentes de uma instituição de ideias anacrônicas – a caserna brasileira –  faltou pouco para assistirmos a uma quartelada liderada por uma milicada delirante e perigosa.
A saída golpista só fracassou porque parte da elite bananeira ainda foi capaz de sentir vergonha. Não perante o público interno, claro. É um constrangimento que os incomoda diante das classes dominantes das metrópoles, nas quais tentam se espelhar. Acontece que, com o acelerado avanço do neofascismo pelo mundo, esse sentimento de vergonha está se esvaindo. Uma nova conjuntura internacional que se desenha favorece isso.
Ao que parece, a elite bananeira optou pelo confronto aberto contra qualquer força política que ouse desafiar a pornográfica desigualdade econômica e social que reina no Brasil. Caminham para, simbolicamente, revogar a Lei Áurea, já que não aceitam mais fazer concessões e exigem retrocessos. Acabou o tempo das conciliações, bonapartismos, golpes dissimulados e intentonas de neo-quarteladas. Agora trata-se de impedir de governar, sabotar, fazer sangrar e desgastar. Tudo para que  qualquer alternativa de governo com uma mínima inclinação social chegue nas eleições do próximo ano sem grandes possibilidades de vitória. Não aceitam mais negociar com o maior negociador que o Brasil já teve, capaz de fazer grandes concessões em troca de poder implementar políticas compensatórias que diminuam o sofrimento da população mais vulnerável.
Portanto, caminhamos para um confronto. Uma análise do cenário atual aponta para uma vitória da elite bananeira nas eleições de 2026. A extrema direita deve ampliar a maioria na Câmara e conquistar o Senado, ponto de partida para subjugar o Poder Judiciário. Mesmo que não conquiste a presidência, isso já não importará tanto. Um Poder Executivo raquítico, será refém e poderá ser facilmente derrubado, tal como um castelo de cartas.
A sabotagem do governo já começou e não vai parar.  O Congresso, retomando as pautas bomba, irá fazer o governo sangrar até as eleições, com o total apoio do jornalismo de guerra – os jornalões que são os diários oficiais da elite econômica. As redes sociais dominadas pelo neofascismo amplificarão os ataques, turbinando as fakenews com os recursos da inteligência artificial. Os pastores arautos do anticristo também intensificarão as suas pregações. Tudo com apoio simpático da internacional neofascista. A recente matéria da revista ” The Economist” é só uma primeira sinalização.
Sem saída, um governo de conciliação fica sem alternativas. Não há sequer espaço para a tal Realpolitik. Apesar de ter pautas de grande apelo popular, o governo não demonstra capacidade de mobilizar as ruas. Resta apenas recorrer ao Tik Tok para atacar a imagem da elite bananeira e de seus deputados-mercadoria (quando não são meros  prepostos, são produtos facilmente compráveis na hora da xepa). Como reconheceu o pastor destilador de ódio (que deveria estar procurando uma rola), “grande parte da direita é prostituta e vagabunda, que se vende”, em um curioso sincericídio na Avenida Paulista recentemente.
Parece não haver outra opção senão o confronto. Há pautas que ajudam: a isenção de impostos para os mais pobres, a redução da jornada de trabalho, a reposição do salário mínimo e outros benefícios sociais. Temas que assustam as elites herdeiras dos escravocratas. A tal ponto que assistimos o maior telejornal do país, de propriedade de uma das mais bilionárias famílias do país, colocar no ar em horário nobre mais uma matéria infame, entre tantas que fez ao longo de sua história.
Nesse cenário, cabe resgatar a ideia do filósofo esloveno Zizek sobre a necessidade de recuperar Lênin, líder que tinha a inigualável habilidade de identificar e manobrar com a virtu e a fortuna. Quando não há mais condições de governabilidade, instaura-se uma crise revolucionária cuja saída só pode ser uma ruptura. Lênin percebeu isso em 1917 e, de uma posição extremamente minoritária, em poucos meses foi capaz de mobilizar o povo para sustentar uma insurreição. Não faltam bandeiras que poderão fazer o papel do “pão, terra e paz” para incitar um levante.
Em tese, poderíamos até sonhar com a hoje esquecida ideia de “revolução brasileira”. A má notícia é que, infelizmente, não temos um Lênin patropi. O confronto pode redundar numa acachapante derrota. Mas não há outra alternativa. Quando muito, talvez seja possível fazer com que eles sintam vergonha novamente. E aí, quem sabe, abram-se novas possibilidades de negociação. E assim mudar para que nada mude, cumprindo a eterna sina de república das bananas.
Post Scriptum
Pelas informações que chegam de Lisboa, onde a elite bananeira está reunida nestes dias, discute-se por lá que o confronto com uma pauta de grande apelo popular poderá ter um efeito contrário ao desejado para os fins eleitorais da elite bananeira. Lá estão reunidos o alto escalão do judiciário brasileiro (inclusive os “neo iluministas”), os principais expoentes do capitalismo industrial e financeiro do Brazil, além dos principais caciques dos interesses paroquiais e patrimonialistas do parlamento brasileiro. Todos imbuídos do firme propósito de perpetuar a república bananeira. Tudo indica que teremos mais um acordão à vista.

Otimismo, pero no mucho

Muitos articulistas estão saudando o fato inédito de que, pela primeira vez na nossa história, vimos oficiais golpistas de alta patente no banco dos réus. De fato, não deixa de ser um avanço a ser celebrado. Mas ainda é muito cedo para comemorações efusivas. São necessárias muitas gerações para que se altere o DNA de uma república bananeira.

Me desculpem os otimistas, mas algumas coisas devem ser ditas.

O depoimento do dito “núcleo duro” da intentona golpista não trouxe surpresas. Amparados pelo direito penal, que lhes permite que silenciem ou mintam para não produzir provas contra si próprios, não era mesmo para esperarmos nada muito diferente do que assistimos: uma encenação tosca, recheada de cinismo, dissimulação, eufemismos, deboches e algumas sutis doses de arrogância. O almirante que teria deixado as suas tropas de prontidão, depôs com uma postura de quem aguarda o momento de vingança no futuro. O generaleco que carrega fama de genocida no Haiti, idem. Não esperam por uma absolvição, dada a ampla quantidade de batom encontrada em suas cuecas. Mas contam com prisões curtas, possivelmente domiciliares, com a possibilidade de indulto ou anistia no próximo governo.

Militares derrotados agem assim: tentam minimizar danos no presente enquanto pensam em como acumular forças para um contragolpe no futuro. Porém eles têm em mente muito mais do que isso. Não se enganem: sonham com uma revanche. Não comandada por eles, com seus vistosos pijamas que logo vestirão. Mas executadas pelos seus “irmãos” de farda mais jovens, na ativa, os golpistas do amanhã que são (de)formados aos montes anualmente pelas academias militares.

Observando o cenário nacional e internacional, com um tipo de neofascismo em franca ascensão, eles sabem o que fazem. No Brasil, do jeito que a coisa vai, tudo indica que o Senado vai matar a nossa débil democracia em 2027. A guerra híbrida do Tio Sam virá com todos os seus recursos e bigtechs engajadas nesse projeto nas eleições de 2026.

Em breve teremos uma primeira sinalização. Um dos diários oficiais da Faria Lima já estampou nesses dias: “EUA garantem ‘relação firme com Brasil’, apesar de possível sanção a Moraes”. Mesmo depois do governo brasileiro avisar que isso será interpretado como um ataque à soberania nacional.

Trump tem pouco tempo para implantar e consolidar a sua autocracia: até as eleições de meio de mandato, que podem lhe tirar o controle das casas legislativas. Por isso está dobrando a aposta, tanto interna quanto externamente. A tal ponto que colocou soldados para atacar cidadãos de seu próprio país.

Na América latina, suas ações já se fazem sentir. A interferência nas eleições do Equador garantiu a vitória de seu títere. E seria ingênuo interpretar o retorno dos atentados políticos na Colômbia como mera coincidência. Logo a Bolívia sofrerá uma desestabilização, auxiliada pela incapacidade dos líderes de esquerda de construírem uma unidade (talvez existam “cabos anselmos” atuando por lá, nunca se sabe). Na Venezuela, recentemente a embaixada dos EUA recomendou fortemente que seus cidadãos deixassem o país. As digitais de Marc Rubio estão por toda parte, pra quem quiser ver.

Portanto, a comemoração de uma provável e inédita punição aos golpistas é louvável. Porém deve ser comedida, sem perder a prudência. Um ineditismo histórico digno de grande festa será uma robusta vitória do campo democrático nas próximas eleições, tanto no Executivo quanto no Legislativo. Infelizmente, nesse momento, não nos parece algo muito provável. Mas os dados estão rolando. Brindemos à esperança, mas sem grande otimismo.

Dias infelizes na maior república bananeira

Nestes últimos dias tivemos o primeiro caso de um militar punido por golpismo: um suboficial da marinha. Talvez apenas para quebrar o gelo, para o povo da caserna se preparar para a punição de uma alta patente. Curiosamente, todos os vencimentos do militar serão preservados e revertidos para a família dele. No meio militar, o defenestrado ganha o status de “morto”, como se fosse um soldado abatido. Afinal, são “irmãos por escolha”, que nunca são abandonados ou deixados para trás.

Até os que não são militares, se ajudaram na execução dos planos golpistas estão inseridos numa rede de proteção. Vide o terrorista que tentou explodir um caminhão-tanque no aeroporto de Brasília. Se tivesse tido sucesso, seria um massacre. Mas já ganhou liberdade condicional, apoio logístico incluindo moradia e um bom emprego oferecido por empresários do ogronegócio.

Outros terroristas, do grupo chefiado pelo coronel colega de turma do Bolzo na AMAN, seguem livres, leves e soltos por aí. Prontos a atender qualquer chamado de ordem unida. O grupo terrorista foi descoberto por acaso, numa investigação de venda de sentenças no Judiciário. Por isso, enquanto houver impunidade, o risco de golpe será uma eterna sombra pairando sobre a nossa república bananeira.

O golpismo também é tolerado dentro do Poder Judiciário, onde a pena máxima é a aposentadoria compulsória, com vencimentos integrais e seus penduricalhos. É a pena que um juiz bombado, parcial e justiceiro acabou de receber. Ignoram o preceito básico que diz que todos são iguais perante a lei, não é mesmo? Pois é, numa república bananeira, isso é só retórica. Alguns poucos são mais iguais que outros. Senão vejamos o que aconteceu numa prisão quase simultânea a esses fatos que narramos. Um jovem MC negro, cujas composições são crônicas da vida numa favela, foi preso por apologia ao crime num espetáculo policial raramente aplicado a homens brancos, mesmo que sejam bicheiros, homicidas ou militares golpistas.

Enquanto isso, a deputada pistoleira operou uma descarada “fuga das galinhas”. Tal como o deputado bananinha, se diz perseguida política em busca de asilo. Todos sonhando e apelando para o Trump fazer alguma coisa por eles.

Por isso este blog segue afirmando que somos a maior república bananeira do mundo. Basta ver como a dita grande imprensa – diário oficial da elite rentista – trata esses personagens bizarros. Alguns participaram de uma conspiração para assassinar o Presidente e o Vice-presidente eleitos, além de juízes do STF e outras personalidades. A outra contratou um hacker para invadir o sistema informático do Poder Judiciário para adulterar documentos oficiais. Perseguição política? Pela cobertura da grande imprensa, parece, porque tais fatos não são retratados com a dimensão da sua gravidade. Pura vitamina de banana. O jornalismo de guerra segue dando palco pra essa turma e fazendo cobertura pra lá de facciosa dos fatos. Porque os fascismos são funcionais para o rentismo e sempre podem ser uma alternativa, mesmo que indigesta.

Será que Trump irá salvá-los? Nada é impossível, mas esses pilantras não deveriam contar com isso. Essas figuras deploráveis são para ele apenas vira-latas sabujos. Certamente o presidente dos EUA tem outras prioridades e meios para defender os interesses das bightechs que o patrocinaram. Pode até citá-los em suas postagens do “X”, mas só pra criar clima na sua luta para impedir que restrições sejam aplicadas às redes sociais, o principal recurso de poder do neofascismo hoje.

Mas não tenham dúvidas: em algum momento o governo Trump agirá para abater a nossa democracia, que ousa se integrar soberanamente ao BRICS. A interferência nas eleições do ano que vem será brutal. As bigtechs recentemente deram até um curso de formação em fakenews para os pústulas do bolzofascismo. Teremos uma verdadeira guerra no ano que vem, com deepfakes criadas por IA bombando do Oiapoque ao Chuí.

Enquanto isso, mais um pré-candidato (governador de MG) passou pano pra ditadura militar e prometeu dar indulto ao Bolzo se for eleito (algo já prometido pelo governador de Goiás). Ainda anunciou que pretende implantar uma política de segurança pública similar à de Bukele em El Salvador, com prisões abusivas em massa. Já o governador de São Paulo, o preferido do rentismo, jura que não entrará na disputa sem a benção do Bolzo.

A promessa de indulto soa como música para os ouvidos dos golpistas. E também para o assassino de Marielle Franco. A delação premiada só foi feita após consolidada a derrota do Bolzo e a derrota do golpe, pois o miliciano certamente contava com o perdão presidencial. Fechada essa via, optou por uma delação que, se não é falsa, é bem seletiva. É o que se pode deduzir por conta das contradições com outros testemunhos e depoimentos do próprio. Pode haver uma aí embutida uma moeda de troca para garantir um indulto futuro.

A milicada, prudente, sabe que está num momento de manter as tropas aquarteladas, acompanhando tudo em discreto silêncio. Mas não puderam esconder a frustração que foi a visita daquele que, na prática, é o superior hierárquico deles, o Almirante que é o atual chefe militar do Comando Sul dos EUA. Talvez esperassem um recado de que, com Trump, uma nova tentativa de golpe seria apoiada num futuro breve. Estenderam tapete vermelho pra ele, foram esnobados e resolveram esnobá-lo também. Mas a milicada, mesmo que frustrada, deve continuar esperançosa. O atual comandante foi indicado por Biden e pode ser substituído por um fantoche do Trump, para fazer por aqui o que acabam de conseguir no Paraguai e no Equador, cujos parlamentares aprovaram a instalação de bases militares estrangeiras em seu território. O Centrão, por alguns milhares de doláres, faria o mesmo, fácil, fácil. Entregariam a base aérea de Natal e Fernando de Noronha pro Tio Sam descaradamente.

Enfim, a democracia ainda respira por aparelhos na maior república bananeira do planeta.

Segue a guerra das bananas

Dudu bananinha, que faz lobby para que os EUA aplique punições às autoridades brasileiras que processam seus amigos e familiares por atividades criminosas, está exultante nas redes sociais. Tudo por conta do anúncio do governo Trump de promover represálias a quem ameace os interesses ou a plena liberdade de expressão dos seus cidadãos. Uma comentário do Marc Rubio, com uma suposta indireta ao Xandão no “X”, causou alvoroço. Porém, para a maioria dos analistas, a medida visa muito mais a regulação das redes sociais pela União Europeia, que está inspirando outras leis similares pelo mundo. O destino pessoal dos bolsofascistas é secundário para o Trump. O que interessa a ele é defender os interesses das bigtechs que o levaram ao poder.

Nesse cenário, de forma descarada, uma aliança Centrão/Bolsofascismo aprovou uma Moção de Solidariedade ao filho de Jair Bolsonaro na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara. Quinta-coluna é pouco para adjetivar essa escumalha. Mas a aliança oportunista tem também o objetivo de promover mais um possível pré-candidato à presidência em 2026. Um dos “capos” do centrão afirmou que o nome deve sair da família do Bolzo, já que o chefe do clã, ao menos até o presente momento, resiste a apoiar outro nome fora de seu círculo familiar.

A PGR reagiu e abriu uma investigação sobre as atividades do deputado bananinha nos EUA. Curiosamente, um dos diários oficiais da Faria Lima saiu em defesa do deputado, acusando a PGR e o STF de perseguir a liberdade de expressão. Nada de novo sob o sol. Enquanto o rentismo não tiver um candidato viável para vencer as próximas eleições, não vai deixar o bolsofascismo fenecer. Na pior das hipóteses, pode ser a única alternativa que reste para a banca, mesmo sendo um tanto indesejável. Daí a capa de uma revista semanal já estampar o filhote de bolzo como um “perseguido”, em mais um balão de ensaio típico dessa costumeira vergonha jornalística.

Já outro jornal, especializado em economia, abriu suas páginas para um notório Faria Limer, investidor CEO, CIO e outras tretas. Além de exaltar Milei, Trump e incensar Tarcísio, pintou um cenário de assustador caso o governo seja reeleito, “penalizando a alta renda para continuar subsidiando as classes menos privilegiadas”, disse ele. Um raro momento de sincericídio da elite bananeira, que revela o seu desprezo pela solidariedade social.

Paralelamente a esses fatos, a Polícia Federal descobriu que, além de formar golpistas, a AMAN também formou milicianos verde-oliva. A descoberta de um grupo de extermínio para executar altas autoridades, com tabela de preço e tudo, demonstra o quão os militares são os responsáveis pela nossa bananice. Aliás, um grupo terrorista comandada por um coronel ex-colega de turma do Bolzo. Enquanto a impunidade grassar no meio militar, essas excrecências serão recorrentes. Desde o caso Para-Sar, passando pelo episódio do Riocentro, a (de)formação militar produz essas monstruosidades. O pior é que essas abominações ainda estão por aí, a espera de uma oportunidade para ressurgir.

É difícil a vida da democracia nas repúblicas bananeiras.

Por essa e por outras, a situação dos golpistas no STF só se complica. Daí se aferrarem a sua última esperança. Anseiam por uma manifestação direta de apoio do presidente “de coração” deles (Donald Trump). Sonham com uma nova operação “Brother Sam”. Porém os EUA ainda sabem medir riscos. Trump é capaz de bravatas eloquentes, mas recua quando a resistência é grande. Já virou até piada naquelas bandas o termo TACO (Trump Always Chickens Out, ou “Trump sempre amarela”).

Se Trump fizer algo contra o Brasil, algo que certamente fará, nesse momento será algo mais simbólico. O que é mais provável é uso de táticas de guerra híbrida. Afinal, atingir o BRICS é a verdadeira meta do Tio Sam. Bolzo&famiglia  é só pet subserviente, nada mais que isso.

Com a popularidade despencando e resistência interna crescente, Trump só tem dois anos para fincar o seu projeto autocrático. As eleições de meio de mandato podem minar seus intentos. Além disso, o antiamericanismo vai crescendo pelo mundo. Musk pediu o boné ao aprender a sua primeira lição. Com a queda vertiginosa nos lucros da Tesla entendeu o óbvio: é melhor bancar testas-de-ferro do que assumir pessoalmente funções governativas.

Segue o jogo.

O Trump que nos reserva?

Neste momento, aguardam-se possíveis retaliações dos EUA ao Brasil. Num primeiro momento, dirigido aos Ministros do STF, para alimentar a horda dos cães rastejantes do bolsonarismo que lambem a sola dos pés de Donald Trump. Cabe refletir sobre o que isso poderá ocasionar. Porém antes é preciso refletir sobre o “modo Trump” de agir e suas motivações.

Já vimos o presidente fantoche da OTAN na Ucrânia ser humilhado por Trump. Usando uma linguagem de jogador de cassino, o presidente americano o acusou de não ter cartas na mão pra mandar no jogo. Nada surpreendente. Esse sempre foi o comportamento do empresário Trump em seus negócios: exibir o seu poderio, blefar, sem quaisquer escrúpulos. Ao contrário das recomendações dos tradicionais manuais de negociação, que divulgam a falácia do modelo de negociação “ganha-ganha” – quase um clichê nesse meio – Trump exige submissão.

O maior negociador do Brasil, uma cara chamado Luis Inácio, disse certa vez que “não existe ganha-ganha; o que existe é um que ganha e um outro que finge que ganha”. Trata-se de uma verdade nem sempre óbvia: numa negociação, sempre há um ganhador. O perdedor aceita o acordo porque é o máximo que ele pode obter com os recursos que tem, o que pode ser melhor do que ficar sem acordo algum.

O que o ganhador de fato deve evitar é humilhar o perdedor. Deve ser magnânimo e oferecer saídas honrosas, prêmios de consolação. Do contrário, o oponente ficará aguardado uma primeira oportunidade para dar o troco.

Trump corre um sério risco de se lascar exatamente por isso. Vai alimentar ressentimentos e antiamericanismo pelo mundo inteiro. Vide o efeito nas eleições do Canadá e da Austrália. A forma de negociar supostamente bem-sucedida que ele teve como gestor de empresas não se aplica às negociações entre nações soberanas. As relações internacionais não são jogos de pôquer.

A guerra de tarifas tem muito de blefe, em que Trump ameça e depois recua, visando negociar e obter assim condições mais vantajosas em relação as então vigentes. Países sem grande poder de negociação, se ajoelham. Vide caso do Panamá. A Ucrânia, para não ser abandonada à proproria sorte, teve que ceder a sua soberaria sobre suas reservas de terras raras.

Por isso não se deve menosprezar as bravatas de Trump. Os EUA tem muito poder de barganha. Podem aplicar muitas sanções, por conta de seu poderio econômico e do controle do dólar nas transações internacionais (cujas alternativas ainda engatinham). Podem desestabilizar países com ferramentas de guerra híbrida, com o apoio da CIA e, agora, das bightechs que controlam o fluxo de informações e fakenews nas redes sociais. Por último, eles possuem muitas centenas de bases militares espalhadas por todos os continentes.

As bravatas do Trump, assim com as fakenews, são meras táticas a serviço de uma estratégia bem clara e pragmática: impedir o avanço da China, o real inimigo do Tio Sam, que está desmantelando o poder imperial dos EUA. Aqui é que mora o perigo para o Brasil.Somos uma peça chave do BRICS bem onde o Tio Sam considera o seu quintal.

E isso tem sido dito de forma explícita no “canal oficial” do governo Trump: as entrevistas da FOX news. O Secretário de Defesa atribuiu a Trump a frase ‘Isso acabou, vamos retomar o nosso quintal”. Já o próprio presidnete afirmou que os países latino-americanos talvez devam escolher entre China e EUA.

O ataque virá, principalmente em reação ao acordo recentemente pactuado com a China. Assim como já começaram a mostrar as garras para a África do Sul, braço do BRICS no continente africano.

Mao-Tsé Tung (que já há algum tempo se grafa Mao Zedong) certa vez se referiu aos EUA como um “Tigre de Papel” (“Na aparência é muito poderoso, mas, na verdade, não é nada a temer; é um tigre de papel. De fora um tigre, dentro é feito de papel, incapaz de resistir ao vento e à chuva. Acredito que não é mais que um tigre de papel.”). Pode ser verdade para a China, mas para o Brasil e o Sul Global, é um predador bem ameaçador, que não deve ser menosprezado. Até porque ele conta com muitos quinta-colunas na nossa república bananeira.

Marc Rubio certamente já organiza a desestabilização das eleições deste ano no Chile, na Bolívia, em Honduras e na Guiana – enquanto saboreia a vitória de um serviçal no Equador. Tem o apoio da Argentina com Milei, de El Salvador com Bukele e, discretamente, conta com o Paraguai. Ações para desestabilizar Colômbia, México e Brasil serão frequentes, além dos habituais ataques à Venezuela, Cuba e Nicarágua. Curiosamente, e de forma inédita, há poucos dias a Embaixada dos EUA em Caracas emitiu um alerta aconselhando os cidadãos norte-americanos a deixar a Venezuela imediatamente. Haverá algo sendo tramado?

Aguardemos os próximos capítulos.