Brasil, o Rei “Borg” e seu “Conselho de Paz”

Numa das mais recentes temporadas da longeva série de ficção científica Star Trek (Jornada nas Estrelas), a nova geração dos tripulantes da nave estelar USS Enterprise enfrenta uma poderosa raça cibernética alienígena. Os denominados “Borgs” capturam outras raças e as transformam em ciborgues, meio gente meio máquina, controlados por uma única mente, uma rainha da colmeia. Porém, antes do ataque, fazem uma advertência: “- Resistir é inútil, vocês serão assimilados“. E, após oferecem a alternativa de capitulação, sentenciam: “- Sua vida, como ela era, acabou. Adicionaremos suas características biológicas e tecnológicas às nossas. Sua cultura se adaptará para nos servir.” (frases transcritas dos episódios da série).

O que os roteiristas talvez não imaginassem é que essa criatura da ficção ocuparia a presidência dos EUA. Trump exibe o seu poder militar, que poucos podem desafiar, para exigir uma rendição aos seus desígnios. Já que resistir é inútil, a opção que resta é negociar, ou melhor, se postar de joelhos. O país agredido sabe que, se resistir, poderá ser devastado. O único trunfo é saber que o custo de uma invasão em larga escala para o agressor também seria elevado. Aliás, esse custo é único limite colocado para as decisões de Trump.

O uso de sanções econômicas para sabotar a economia dos países sempre foi o instrumento corriqueiro para desestabilizar regimes políticos. Ao semear o caos econômico, estimula-se a sedição popular. Procura-se assim criar fissuras e rachar o bloco que exerce o poder. Porém é uma pressão ineficaz em países que possuem um controle firme das suas forças armadas, caso em se enquadram a Venezuela, o Irã, Cuba e Nicarágua. Por essa razão, agora a ameaça de uso do poder militar superior entrou em cena como elemento de “convencimento”, para que se aceite uma rendição negociada.

Isso explica a espetacular ação militar na Venezuela, que teria utilizado recursos militares inéditos e ainda desconhecidos. Antes de tudo, foi uma exibição ao mundo de uma superioridade militar supostamente insuperável. E, como a condenação internacional foi pífia e protocolar, o celerado que comanda a maior potência militar do planeta está se sentindo bem à vontade para avançar nos seus planos. Numa entrevista completamente insana, anunciou que vai anexar a Groenlândia, da forma mais fácil ou mais difícil (em outras palavras, comprando ou invadindo). Avisou que o regime cubano terá que negociar a sua capitulação, porque cortará todo o suprimento de petróleo para a ilha. E, na ameaça mais ambiciosa – e preocupante – ameaça atacar o Irã para provocar uma mudança de regime do país. Uma ameaça que soa como clara bravata. Além da capacidade de reação do regime iraniano ser muito maior, o país está fora do “quintal” dos EUA. Ademais, o Irã possui significativos laços econômicos e militares com Rússia e China. Uma realidade muito diferente da Venezuela. Mas não se deve descartar um ataque cirúrgico, similar à do assassinato do general Soleimani ou às instalações nucleares subterrâneas.

Como já é de conhecimento público, Trump sofre de um profundo transtorno narcísico, o que dá um certo grau de imprevisibilidade às suas ações. Por enquanto, ele ainda joga pôquer: dobra a aposta, blefa, intimida os adversários para que paguem pra ver ou que saiam do jogo. E isso tem funcionado na maior parte das vezes. Mesmo quando Trump recua, ele volta para uma posição mais vantajosa do que tinha no início da jogatina.

O tarifaço que seria aplicado aos países europeus contrários a venda da Groenlândia para os EUA foi mais um grande blefe. No Fórum de Davos recuou da ameaça e insinuou que topa negociar uma presença maior naquele território, para ampliar instalações militares, controlar as rotas ao Ártico, instalar empresas que controlarão a exploração de minerais estratégicos da ilha. E ainda ofereceu um bônus de um milhão de dólares para cada um dos seus habitantes (que são apenas 57 mil). Se não fosse pelo criminoso passado colonialista da Europa, sentiríamos pena dos atuais líderes do continente europeu, tamanha a humilhação a que tem sido submetidos e pela ridícula capacidade de reagir com um mínimo de altivez. Tudo indica que, depois de espernearem, farão concessões.

Em paralelo, Trump lançou um embrião de um novo organismo internacional, o “Conselho de Paz” de Gaza. Quase uma nova ONU pra chamar de sua. Pelos países que estão aderindo, parece que vai se materializando a organização criada pela ficção cinematográfica, a OPA – Organização dos Países Ajoelhados (criação do saudoso cineasta argentino Fernando Solanas). https://www.youtube.com/watch?v=RAB98PtJgcA

O Brasil foi publicamente convidado a se integrar a esse Conselho, ao lado das repúblicas bananeiras vizinhas que já aderiram (Argentina e Paraguai). Como a proposta é sabidamente inaceitável, não se trata de um convite, mas sim de uma ameaça velada: queremos que vocês fiquem na nossa órbita, de joelhos; se não quiserem, vamos ajudar os que se dispõem a isso a ganhar as eleições daí esse ano. Se duvidam, “paguem pra ver”. Esse é o subtexto do tal convite. No mais, restam os exercícios de contorcionismo retórico para os nossos diplomatas.

Com o Brasil não há necessidade de ameaças militares. Pelo contrário, as FFAA brasileiras são ideologicamente subservientes e rastejantes ao Comando Militar Sul dos EUA. Porém as armas da guerra híbrida serão usadas em todas as suas modalidades para ajudar a eleger um capacho na presidência do Brasil. Se Trump levar adiante a ameça de aplicar tarifas de 25% aos que fazem comércio com o Irã, em breve sofreremos mais um ataque.

Recentemente, um médico norte-americano disse ter diagnosticado um quadro de inicial de demência em Trump. Se ele estiver certo, o mundo está caminhando sobre a lâmina de uma navalha. A insanidade dele poderá conduzir o mundo a mais um desastre civilizatório, porque é pouco provável que os políticos republicanos sejam capazes de contê-lo.

Em novembro, após as eleições de meio de mandato, Trump dará o seu golpe final. Talvez provoque deliberadamente uma guerra, tática comumente utilizada por déspotas para permanecerem no poder, mobilizando sentimentos nacionalistas. Já ameaçou usar a Lei de Insurreição contra governantes democratas. Se ainda assim Trump perder a eleição, a invasão do Capitólio de 2021 será vista como mera brincadeira de criança. Para alguns mais catastrofistas, há até o risco de uma guerra civil naquelas bandas. Por mais trágico que isso venha a ser, talvez o colapso interno dos EUA seja necessário para que o mundo tenha alguma esperança de paz.

A guerra será longa. Como fica o Brasil nisso?

O ano de 2026 começou com o ataque dos EUA à Venezuela. Um ataque simbólico, que marca o fim de uma era nas relações internacionais. E também um ato que historiadores do futuro – se houver futuro – talvez denominem como o marco inicial da terceira guerra mundial.

Para o Brasil, assim como para os demais países periféricos que integram aquilo que os EUA consideram o seu quintal, garantir a autodeterminação e soberania nacional será um desafio imenso. Este ano seremos alvo de várias ações comandadas pelos EUA para interferir no resultado das nossas eleições. Eles querem um capacho, um fantoche dos EUA na cadeira presidencial. E não faltam candidatos prontos para se prestarem a esse papel infame, vide as recentes postagens dos governadores presidenciáveis, quintas-colunas notórios. E eles contam com o apoio da nossa elite econômica neocolonial, que só quer garantir seus ganhos e privilégios, pouco se importando com o destino e o bem-estar da maioria do povo brasileiro.

Além dos conflitos bélicos se espraiando pelo planeta, vários analistas econômicos alertam que o mundo está à beira de uma crise econômica gravíssima, com o estouro de bolhas financeiras. A metáfora da avalanche, que o intelectual italiano Franco Berardi usa para descrever o momento atual do planeta, vai se confirmando:

Quando uma avalanche está prestes a se formar em uma montanha, talvez exista a possibilidade de impedir que ela desça em direção à cidade que está lá embaixo no vale. Mas, quando a avalanche já começou e desce rapidamente pela encosta, de nada adianta tentar detê-la; a única coisa que você pode fazer é escapar rapidamente(…) A sociedade não pode deter a avalanche, mas pode encontrar formas de sobreviver e se preparar para o que vem a seguir. O que resta a fazer é multiplicar os pontos de fuga e os refúgios onde sobreviver durante a tempestade.

Esse é o desafio que está colocado para o nosso país.

Derrotar eleitoralmente o neofascismo, os quintas-colunas serviçais de interesse estrangeiros, impedir o desmonte das nossas frágeis instituições democráticas. Eleger para a Câmara uma bancada mínima o suficiente para barrar retrocessos (mínima, porque uma maioria simples é uma meta pouco factível). Impedir que o Senado caia nas mãos dos neofascistas e subjugue o STF.

Como tornar isso possível? Esse será o tema das nossas próximas postagens.

Sobre os acontecimentos na Venezuela, este blog deixa a seguir algumas considerações descartáveis, diante de tanta coisa publicada por aí, com mais densidade e conhecimento. Apenas para registrar que a previsão das nossas postagens anteriores, de uma “intervenção cirúrgica” naquele país, se confirmou.

Como se previa, a Venezuela sofreu um ataque cirúrgico. O seu presidente foi sequestrado e exibido como um troféu. Um verdadeiro show midiático cujos dividendos políticos para Trump ainda são incertos, fora alimentar o seu narcisismo hiperbólico. Comprovou-se que a ameaça de invasão terrestre era uma bravata. O povo dos EUA não gosta de ver seus jovens retornarem em caixões, mesmo em casos de campanhas vitoriosas. E o governo do Tio Sam aprendeu alguma coisa com as experiências ruins que tiveram após as invasões da Líbia, Iraque e Afeganistão. Eventuais danos de uma invasão poderiam ter péssimas repercussões em um ano eleitoral, momento chave para Trump consolidar a sua autocracia.

A opção pelo pragmatismo parece ter triunfado. Em vez de uma ocupação militar sangrenta, com a imposição de um governante fantoche, foi oferecido aos chavistas a continuidade no poder. Em troca, exige-se a gestão dos recursos naturais (petróleo, ouro, outros minérios) pelas empresas ianques, incluindo a suspensão das relações comerciais com os inimigos do Império (Cuba, Irã, China, Rússia). E, principalmente, negociações em petro-dólares norte-americanos. Se essa inusitada arquitetura vai dar certo, logo saberemos. Tudo ainda está muito nebuloso. Para alguns, a total neutralização da resistência ao ataque não se explica somente pela superioridade tecnológica e militar. Se houve traição ou negociação prévia, só o tempo dirá. Para o povo venezuelano, o cenário não é nada animador.

O fato é que estamos testemunhando os primeiros momentos da terceira guerra mundial. Uma guerra que será longa. Como nas muitas horas gastas no clássico jogo de tabuleiro WAR, com avanços e recuos conforme os objetivos estratégicos dos jogadores. No mundo, serão anos de confrontação. A globalização criou cadeias produtivas que se integram e interagem além das fronteiras nacionais de uma forma complexa. Um rearranjo disso não será uma operação fácil nem rápida.

Todos sabem que o uso do arsenal nuclear pelas grandes potências poderá significar o fim da civilização humana como a conhecemos. No entanto, essas armas continuarão a ser invocadas. Nem que seja apenas como retórica, pelo seu óbvio poder de dissuasão. Claro que nunca poderemos descartar que um líder alucinado aperte o primeiro botão. Porém este não é o cenário mais provável. A guerra será de ocupação/capitulação – por meios militares ou não – dos territórios estratégicos para as grandes potências, de acordo com seus objetivos geopolíticos.

Tempos difíceis virão.

Novo cenário da Guerra de Agressão do Império.

O Brasil venceu a primeira batalha na guerra de agressão do Império do Tio Sam. Uma vitória que se deu no campo das negociações diplomáticas. Trump recuou com grande parte das sanções tarifárias e concordou com a suspensão da aplicação da Lei Magnitsky. O governo dos EUA entendeu que estava prejudicando mais a si mesmo ao abraçar a defesa de uma família de imbecis, de loosers. Porém, como em toda negociação, o Brasil teve que fazer algumas concessões, que permanecem no segredo dos bastidores (terras raras, bigtechs, streaming audiovisual, etc.).

E tem outra coisa que deve ser celebrada: a prisão dos golpistas – incluindo o ex-presidente e mais um almirante e quatro generais estrelados – um verdadeiro marco na nossa história. Mesmo que, a exemplo do que ocorreu no Chile, tenha havido uma negociação para que eles ficassem detidos em suítes confortáveis. Ainda que eles não percam as suas patentes, cumpram só parte da pena ou ganhem prisão domiciliar, o que importa é que estamos diante de um fato inédito e de grande força simbólica, um passo importantíssimo para nos livrarmos da sina de república bananeira. Porque essa é uma guerra longa e outras importantes batalhas se avizinham. As forças bananeiras ainda não foram derrotadas. Longe disso. A aprovação do PL da dosimetria é um exemplo disso (ou uma concessão aos EUA, segundo uma versão). E estas forças irão com todas as suas energias para disputar as eleições do ano que vem, que serão as mais importantes da história do nosso país.

A mentalidade dos nossos militares não mudou, ainda que momentaneamente eles tenham saído dos holofotes para se preservarem. As centenas de oficiais despejados pelas academias militares seguem atrelados a uma mesma doutrina anacrônica. A elite econômica neocolonial, predadora, sem projeto de nação e anti-povo, ainda é a mesma. E a classe política paroquial e patrimonialista, a cada dia está mais degenerada e ambiciosa. Estas são as forças bananeiras.

Por isso é que em 2026 teremos a mãe de todas as batalhas. E sob o espectro da nova face da Doutrina Monroe: a recém divulgada Nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA.

Ao ler esse documento percebemos que não houve a mínima preocupação em dissimular os objetivos do Império: submeter todos os países do continente americano aos interesses de Washington. Seja pelo “convencimento” ou, se necessário, pelo uso da força militar. A única coisa que mudou é que, o que antes era dissimulado de forma hipócrita, agora se tornou explícito da forma mais desavergonhada possível.

Logo após a divulgação do documento, Trump regozijou-se da vitória dos candidatos que apoiou nas eleições presidenciais de Honduras e Chile. No primeiro caso, chegou a conceder indulto a um ex-presidente condenado a 45 anos por narcotráfico. Isso sem qualquer preocupação em ser coerente, já que acusa o presidente venezuelano do mesmo crime, mesmo sem nenhuma evidência. E já faz as mesmas acusações e ameaças de sanções ao presidente colombiano, de olho nas eleições presidenciais daquele país que ocorrerão em poucos meses. Na verdade, a única coisa que importa para Trump é que as lideranças políticas dos países das Américas do Sul e Central sejam subservientes ao domínio dos EUA no continente. E não faltam aqueles que se apressam para demonstrar a sua fidelidade canina. O Governo paraguaio assinou um acordo de cooperação militar, que garante livre acesso das tropas dos EUA ao seus território (sob o pretexto de combater uma suposta presença do Hezbollah na tríplice fronteira). E o recém eleito presidente do Chile já declarou apoio político a uma intervenção militar na Venezuela.

Assim, vai se consolidando na América do Sul e Central a OPA – Organização dos Países Ajoelhados. ( Sempre é bom rever a cena hilária do filme de Fernando Solanas: https://www.youtube.com/watch?v=RAB98PtJgcA )

O alvo da vez é a Venezuela. O momento atual é tenso, com o recém-decretado bloqueio à navegação das embarcações que transportam o petróleo venezuelano, além do confisco desta carga transportada por qualquer navio que saia da Venezuela. Um petróleo que tem por principal destino a China, que compra 80% da produção venezuelana. Não sabemos como a potência asiática reagirá.

A estratégia dos EUA é muito similar aos antigos cercos das cidades medievais, que se rendiam após serem submetidas à fome. É certo que, sem o comércio do petróleo a Venezuela sucumbirá em algumas semanas. Alguns ataques militares cirúrgicos podem ocorrer. E é pouco provável uma invasão por terra. Essa hipótese sempre soou como um blefe, pois teria um alto custo político, principalmente estando às vésperas de eleições legislativas de meio de mandato. O povo norte-americano não gosta de ver mariners sendo repatriados em caixões, mesmo que sejam poucos. A Venezuela, apesar a imensa inferioridade militar, tem um poderio capaz de causar danos no inimigo.

Alguns objetivos parecem claros. Trump não abre mão da cabeça de Maduro. É uma vitória simbólica que ele precisa. Oferece até prêmio milionário pelo assassinato dele. Chegou a oferecer ao mandatário a alternativa de um exílio. Por isso afirmou que ele tem os dias contados. E tudo indica que assim será. O passo seguinte é quem ocupará o poder. Talvez um governo provisório de transição, com chavistas inclusive, que se comprometa com a realização de eleições em alguns meses. No entanto, o ponto principal será os termos dos contratos de exploração do petróleo com as empresas norte-americanas. Trump falou claramente que as reservas da Venezuela – as maiores do mundo – são dos EUA!

Aconteça o que acontecer, tudo dependerá das negociações que acontecem em âmbito reservado entre os EUA, China e Rússia. Entre eles há linhas vermelhas que não podem ser cruzadas, sob o risco de uma grave crise global. E elas estão na Venezuela, na Ucrânia e no Mar da China.

Dominada a Venezuela, as atenções se voltarão para as duas maiores economias da América Latina: México e Brasil. Como o primeiro tem 80% da sua economia integrada à do Império, não chega a ser uma grave ameaça aos EUA, exceto pelas questões fronteiriças. O Brasil sim é a jóia da coroa a ser conquistada. E o jogo sujo será pesado no próximo ano, com as armas de guerra híbrida sendo usadas em todas as suas alternativas. Uma delas já se anuncia: a mobilização da tal geração “Z”, que teve um recente balão de ensaio no México.

Alguns analistas minimizam este risco de sabotagem ao Brasil citando um trecho da estratégia de segurança dos EUA que fala em “realismo flexível”, que seria a busca de “boas relações e relações comerciais pacíficas com as nações do mundo sem impor a eles mudanças democráticas ou sociais que diferem amplamente de suas tradições e histórias”. Prossegue o documento: “ reconhecemos e afirmamos que não há nada inconsistente ou hipócrita ao agir segundo essa avaliação realista ou em manter boas relações com países cujos sistemas de governo e as sociedades diferem das nossas mesmo enquanto incentivamos amigos com ideias semelhantes a defender nossas normas compartilhadas, promovendo nossos interesses enquanto fazemos isso”.

Seria preciso ser muito tolo ou cínico para crer que a suposta “química” entre Trump e Lula nos coloca no âmbito desse tal “realismo flexível”. O trecho parece mais ser endereçado às ditaduras árabes, aliados históricos do Tio Sam. Mas o recado é claro e vale para todos: o que os EUA querem é submissão das nações aos seus interesses. Pouco importa o contexto interno.

Nessa guerra, um confronto aberto é impossível. Para o governo brasileiro, só resta negociar dentro daquilo que a diplomacia chama de “geometria variável”. Só isso explica o esforço do governo para fechar o acordo Mercosul-União Europeia. Um acordo cujos termos são muito ruins para o Brasil, mas que é estratégico dentro da perspectiva do multilateralismo. Além disso, há um trunfo importante: a China, nosso maior parceiro comercial, sustenta a ala mais retrógrada da república bananeira, o agronegócio exportador. O Brasil não aderiu formalmente à nova rota da seda ao cinturão, preservando a nossa flexibilidade. A equação não é simples para nós, mas também não é para o Tio Sam. Por isso Trump precisa de um capacho na nossa presidência.

O Brasil, que terá uma eleição crucial para o seu futuro, será o principal alvo do Império em 2026. E a reeleição poderá ser uma vitória de Pirro, caso o Congresso prossiga com uma mesma composição, ou até pior que a atual.

A sina de ser uma república bananeira não é uma fatalidade histórica. Esta condição foi uma cuidadosa e sólida construção colonial. E que, na sua essência, pouco mudou. A guerra de libertação dessa dominação não se resume em derrotar o neofascismo nas eleições. É uma luta que vai durar ao menos uma geração.

Assim este blog encerra as postagens de 2025. Sem nenhum otimismo, mas com algumas esperanças para 2026. Voltaremos em janeiro para comentar sobre o que pode alimentar as nossas esperanças.

A guerra prossegue

Os quintas-colunas neofascistas do Brasil não desistem da ideia de serem salvos pelo Imperador Laranja. Por isso, se alinharam caninamente à estratégia do governo dos EUA para a retomada plena do que eles consideram o seu quintal. Após o fracasso do lobby tarifário, levantaram a bandeira da violência urbana. O combate ao narcotráfico será a bandeira eleitoral da direita. Fazem demagogia com o terror que o humilde cidadão comum vive no seu dia a dia. Governadores neofascistas devem intensificar as chacinas, apostar ainda mais na espetacularização da violência policial. Se inspiram com a popularidade do presidente salvadorenho Bukele. Não para encontrar soluções, mas para desviar o debate da desigualdade social e assim para colher dividendos eleitorais. E porque sabem da colossal dificuldade da esquerda em oferecer alternativas sólidas para o tema da segurança pública..

Os quinta-colunas alçaram o deputado que foi expulso da PM mais violenta do país – em razão de seus excessos no uso da violência (!) – para ser o relator de um projeto de Lei Antifacções. E ele desfigurou o projeto original para incluir o conceito de narcoterrorismo trumpista. Com a Amazônia brasileira com centenas de laboratórios de refino, seria um presentaço para o Führer laranja. Porém esta ideia não vingou. A presença militar estrangeira desperta desconfiança e mexe com brios nacionalistas. O pragmático Centrão preferiu não se arriscar com isso. Até porque, no último domingo essa ideia foi amplamente rechaçada em plebiscito popular no Equador, mesmo com aquele país sofrendo intensa violência provocada pelo narcotráfico.

Ainda assim, os deputados aproveitaram para incluir formas de esvaziar os poderes da Polícia Federal (que é quem prende os donos do dinheiro sujo que alimenta campanhas eleitorais do centrão e dos neofascistas) e incluíram brechas para a criminalização de movimentos sociais. Agora resta ao Senado colocar freio nas sandices. Resta saber como reagirão os senadores após a PF enjaular um banqueiro “amigo” e financiador de vários parlamentares.

Mesmo assim, o apoio do governo dos EUA aos neofascistas virá, com ações de guerra híbrida. Porém o projeto do Trump está patinando. A eleição parlamentar de meio de mandato seria o momento ideal para instaurar o seu poder absoluto. O putch final vinha sendo cuidadosamente arquitetado. Foi exigido dos altos oficiais total lealdade ao fürher, inclusive para ações repressivas contra cidadãos americanos. A preparação da noite das facas longas nos EUA ia de vento em popa. Porém, com resultados econômicos pífios, somadas as revelações que o assombram de seu passado pedófilo com Epstein, as coisas não vão indo muito bem para ele. A agenda anti woke e os apelos à xenofobia por si só não estão sendo suficientes. A popularidade dele está em queda acelerada, cresce a reação do movimento No King, as administrações democratas reagem, e ele assiste a derrotas no congresso e no judiciário.

Não é incomum que líderes fascistas, quando acuados, fabriquem uma guerra para recuperar a popularidade. São muitos os exemplos ao longo da história. Apelar ao nacionalismo costuma oferecer resultados a curto prazo. Na América do Sul há um precedente: a guerra das Malvinas, nos últimos suspiros da ditadura militar argentina.

Uma ação militar na Venezuela, quiçá na Colômbia, é iminente. Trump declarou que a forma de intervenção já está decidida. Pelo quantitativo de mariners, não deve ser uma invasão terrestre. Baixas norte-americanas poderiam causar mais oposição interna. Tudo indica que serão ações cirúrgicas, para criar o caos e alimentar divisões internas e forçar uma nova composição de governo.Mesmo assim, há um grande risco de dar merda. Em desespero, Trump pode cometer um erro fatal. China e Rússia não irão intervir além dos protestos diplomáticos veementes, mas estarão legitimadas para fazerem o mesmo em seus supostos quintais (Ucrânia e Taiwan).

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou que os EUA pretendem designar os narcotraficantes do Cartel de los Soles como uma organização terrorista estrangeira sob o comando de Nicolás Maduro, mesmo que não haja qualquer evidência disso. O pretexto da vez é o narcoterrorismo, ou melhor, o enquadramento de um crime comum como terrorismo. Uma tática diversionista para conquistar simpatias. Sem muito alarde, movimentos antifascistas também ganharam o mesmo status. Mais do que isso, é uma aviso: depois do narcotráfico, os próximos alvos serão os movimentos sociais que contestarem o domínio imperial. Por isso os quintas-colunas do patropi ainda sonham.

O Brasil chegará nas eleições do ano que vim praticamente isolado (ao lado do nosso pequeno vizinho Uruguai). Até la, quase toda a América do Sul deverá ingressar na OPA – a Organização dos Países Ajoelhados, conforme a genial cena do filme de Fernando Solanas que já citamos em post anterior. Tudo indica que Chile e Colômbia voltarão para as mãos do neofascismo.

A guerra, portanto, vai se acirrar. E os quintas-colunas não descansarão. As farsas, que se repetem na história, seguem a todo vapor. O Governador do RJ já pediu apoio ao governo dos EUA para combater o “narcoterrorismo”. Nada de muito novo, porque às vésperas do golpe de 1964 os governadores de oposição Carlos Lacerda (Guanabara), Magalhães Pinto (Minas Gerais) e Adhemar de Barros (São Paulo) tinham canais diretos com o governo dos EUA para articular a conspiração.

Em 1963, o então Governador da Guanabara foi aos EUA pedir uma intervenção para derrubar o governo de João Goulart. Em entrevista ao“Los Angeles Times”, Carlos Lacerda acusou as Forças Armadas de adotarem “posturas hesitantes” em relação a um golpe de Estado. Tanto o seu partido (UDN) como os comandante militares repudiaram a atitude dele como sendo uma ação impatriótica.Um escrúpulo nacionalista dos golpistas que, pelo que observamos, já não existe mais nos golpistas da atualidade.

 

OPA – Organização dos Países Ajoelhados

Em uma sincronia quase perfeita, mal terminada a contagem dos chacinados no Rio de Janeiro, dois governos de países da OPA (Organização dos Países Ajoelhados), Argentina e Paraguai, declararam que o CV e o PCC são organizações terroristas internacionais. Até mesmo o presidente recém eleito da Bolívia, em carta ao atual presidente em exercício, se antecipou e pediu atenção nas fronteiras para impedir a entrada de organizações criminosas brasileiras. Todos muito obedientes e apressados para demonstrar a sua servidão aos desígnios do Führer do MAGA: instrumentalizar o crime comum para legitimar a intervenção política e militar em países das américas.

A OPA a que nos referimos foi uma crítica genial do cineasta argentino Fernando Solanas, no filme El Viaje (2004). Atualíssimo, infelizmente. A cena é impagável:

https://www.youtube.com/watch?v=RAB98PtJgcA

Assim, a mobilização de todos os quintas-colunas da América Latina avança em ritmo frenético.

A guerra contra o Brasil, que visa tornar o nosso país um quintal definitivo dos EUA, teve nessa semana dois episódios curiosos. Assistimos ao desfecho do primeiro ataque direto ao Brasil. Tentaram, com um “tarifaço” irracional e a aplicação estúpida da Lei Magnitsky, provocar a anistia de seu testa-de-ferro, de forma a habilitá-lo a disputar as eleições do ano que vem. E o Império perdeu essa batalha. E isso porque erraram feio ao confiar nas versões e delírios de uma dupla de idiotas.

Porém o contra-ataque foi rápido, antecipando as ações de guerra híbrida que esperávamos para o ano eleitoral de 2026. Uma carnificina planejada, operada pelos seus quintas-colunas, os neofascistas e traidores da nossa pátria. E bem afinado com o pretexto inventado pela Casa Branca para justificar intervenções nos países da América latina que não lhes são servis: a equiparação do narcotráfico ao terrorismo. Tudo à margem do direito internacional.

Os acontecimentos no Rio de Janeiro tiveram um roteiro bem planejado:

– Castro passou o final de semana que antecedeu o massacre reunido com Flávio Bolsonaro. Ambos são candidatos às duas vagas do Senado no ano que vem (Flávio pela reeleição);

– A ação se deu em total coincidência com a viagem de retorno Lula da Ásia, quando ficou 20 horas incomunicável num avião da FAB, sem wi-fi;

– Na primeira coletiva Castro afirmou e reafirmou exaustivamente que agiu sozinho, porque o governo federal recusou o apoio reiteradamente solicitado. Uma mentira deslavada. Tanto que, logo em seguida, hipocritamente correu para o telefone e se desculpou com o governo federal. Mas a fala já estava no ar, replicada ad infinitum nas redes sociais. Coisa evidentemente planejada;

– O Secretário de Segurança usou, repetidas vezes, o termo narco-terrorismo. Aliás, meses atrás já tinha encaminhado ao governo Trump, através do Consulado dos EUA no Rio de Janeiro, um relatório em que acusa o CV de ser um grupo terrorista com tentáculos na América do Norte, pleiteando a cooperação do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) dos EUA para aplicar sanções. Ou seja, o circo já tinha começado a ser armado;

– Os governadores neofascistas do centro-sul do Brasil (RS, SC, PR, SP, MG, DF e MS) ofereceram prontamente apoio ao governador do RJ e articularam a criação de um “consórcio interestadual” de segurança pública;

– Institutos de pesquisa despejaram rapidamente resultados de enquetes que apontam forte apoio da população à chacina;

– O Governador de São Paulo anunciou que seu vice, velho exterminador da ROTA, poderá reassumir o mandato na Câmara para relatar o projeto de lei que classifica facções criminosas como terroristas (que vai entrar na pauta com grandes chances de ser aprovado);

– Por fim, as manifestações dos hermanos serviçais do império cuidadosamente coordenadas.

A estratégia para as próximas batalhas está definida: explorar o MEDO da população. As bandeiras morais e ideológicas serão agora pano de fundo. O inimigo a ser derrotado é o “terror do narcotráfico”.

E esse “terror” será estimulado, provocado ou fabricado. 

Um novo atentado espetacular pode estar sendo elaborado. Uma nova espécie de “Riocentro”. Só nos resta torcer para que, mais uma vez, a bomba estoure no colo dos fascistas.

Quem avisa amigo é.

AVANÇA A GUERRA HÍBRIDA

Mal esperaram 24 horas após o encontro Lula-Trump. O opção preferencial pela guerra híbrida já estava decidida antes mesmo da reunião entre os presidentes.

Trump subestimou Lula e as instituições brasileiras. Tomou decisões baseadas unicamente em critérios ideológicos. Seus principais asseclas deram crédito a uma dupla de idiotas. Imaginavam que, tal como o Panamá, o Brasil se dobraria facilmente. Por fim, se deu conta que estava prejudicando empresas do próprio país e que os seus interlocutores não eram somente sabujos, mas também uns imbecis inúteis.

Trump percebeu que Lula não é um Maduro (isolado no ocidente), nem um Milei (um desesperado de pires na mão), muito menos um Zelensky (um fantoche “sem cartas na mão”).

Como já dissemos aqui, Trump optou por aplicar um freio de arrumação. Entendeu que, gostando ou não, está lidando com um jogador que sabe usar as poucas cartas que tem. Achava que, como exímio jogador de pôquer, engabelaria com facilidade o jogador do lado de cá. A essa altura, deve estar tentando dominar as regras do nosso popular truco. Porque ainda tem o que aprender na arte de blefar.

Mesmo com todo o seu poderio econômico e militar, Trump teve que ceder a uma negociação civilizada. Percebeu que apenas exibir o porrete, o seu grande big stick, pode não ser a melhor estratégia para retomar o controle do que vê como o seu quintal.

Apostar na guerra híbrida voltou a ser a melhor escolha. Deve ter se lembrado do rival Obama que, enquanto dizia “-Lula é o cara”, colocava a NSA e a CIA para trabalhar.

E rapidamente testemunhamos uma primeira ação. O Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro promoveu uma operação policial – a mais letal da história – para combater um suposto “narcoterrorismo”.

Impossível não ver a “coincidência” – que nada tem nada de coincidência – da promoção de ataques espetaculares ao que o Secretário de Segurança do RJ chama enfática e repetidamente de “narcoterrorismo”. A mesma desculpa que Trump usa para atacar a soberania de governos sulamericanos que não lhe agradam, como a Venezuela e a Colômbia.

A partir de agora o jogo fica mais complexo e, principalmente, perigoso. O circo está armado para que o tema “segurança pública”, assunto no qual a esquerda costuma se atrapalhar, paute o debate eleitoral.

A batalha de 2026 já começou.

 

 

2026: Ano do grande confronto

 

Muita expectativa sobre a reunião de Lula com Trump na Malásia neste final de semana. Não pelo que sairá de concreto dessa conversa, mas pelo que ela sinalizará. A grande imprensa – porta-voz da elite econômica do país – se dedicará a cobrir o que ela chama de “normalização das relações” entre os dois países.

Na aparência, o debate será sobre tarifas, investimentos, regulação econômica. A nossa elite neocolonial não tem projeto para o país, nada além da vontade de multiplicar os seus próprios ganhos. Quer apenas fazer bons negócios com o mercado norte-americano. Na essência, o que realmente estará em jogo é até que ponto o governo brasileiro aceitará abrir mão de sua soberania. E até que ponto os EUA nos querem submetidos à sua esfera de influência.

Não teremos respostas claras nem definitivas. Apenas declarações diplomáticas escorregadias, mensagens subliminares, ameaças dissimuladas, promessas de concessões que talvez nunca sejam cumpridas, saudações cordiais mais falsas do que nota de 3 dólares.

Mas é possível arriscar um resultado: Lula poderá capitalizar uma trégua na guerra tarifária, reafirmar que não é inimigo do ocidente, que Brasil e EUA sempre foram ótimos parceiros e não há porque deixar de continuar a ser assim. E Trump, em seu transtorno narcísico, poderá capitalizar como uma vitória o movimento agressivo que fez. Dirá o que sempre tem dito: ninguém quer ser inimigo dos EUA e todos tem que aceitar negociar nos termos deles. Provavelmente ambos terão louros para exibir para as suas plateias.

Declarações tão elogiosas quanto cínicas não esconderão o fato de que o Império decadente do norte jogará pesado para garantir que seus testas de ferro controlem o que consideram o seu quintal. No próximo ano, em razão das eleições para a presidência e parlamento, viveremos o ápice do nosso embate com o neofascismo e o novo projeto de Reich (o MAGA).

Bom lembrar que estas conversas na Malásia irão ocorrer sob a sombra uma ação cirúrgica iminente na Venezuela, com o possível assassinato de Maduro e outras lideranças locais que a CIA identificar como alvos relevantes. Dessa forma os EUA creem que provocarão uma reorganização interna do núcleo de poder e buscarão um novo interlocutor que se ajoelhe. E mandarão um recado aos que ousam defender a soberania nacional de seus países na América Latina.

Então pode ser que o encontro Lula-Trump não termine neste falso clima de “é namoro ou amizade”. Nos últimos dias começou uma escalada de agressão sem tamanho ao presidente da Colômbia, cujas eleições serão em maio (as do Brasil em outubro). Talvez ainda não seja agora mas, em algum momento, o big stick se voltará contra o Brasil.

Por isso os quinta-colunas do patropi estão alvoroçados. Mesmo que um tanto frustrados por não terem conseguido a liberdade de seu líder, trabalham obstinadamente para dar um novo golpe na democracia. O ano eleitoral dará o cenário que os neofascistas desejam. O apoio que não tiveram no 8 de janeiro de 2024 poderá vir no ano que vem.

As movimentações estão adiantadas. O Centrão se desgarrou de vez da base de apoio do governo e vai se alinhar com os neofascistas. Os clãs de parlamentares que dependem da miséria do povo – para manter seus feudos eleitorais com políticas assistencialistas e demagógicas – escolheram o lado que melhor lhes convêm. E trabalham agora para derrotar qualquer pauta legislativa que turbine programas sociais.

O STF virou o grande alvo da disputa, antes mesmo da definição da nova composição do Senado, casa onde o neofascismo pretende conquistar a hegemonia na próxima legislatura. O autodeclarado neoiluminista pediu pra sair. Apresentou, obviamente, uma desculpa esfarrapada cheia de pompa. O fato é que precisa recuperar o visto para tocar seus empreendimentos nos EUA. Jogada claramente articulada. Não por acaso, o candidato a Carl Schmitt dos trópicos, após tirar a máscara e expor o seu alinhamento ao neofascismo, pediu para mudar de turma. Como bom arrivista que sempre foi, dispensa a dissimulação na hora que lhe convém. E assim vai garantir uma maioria neofascista em metade do STF. Além disso, quando do julgamento dos recursos, poderá fazer um novo teatro em defesa de seu protegido. Por razões que desconhecemos (vistos?), os colegas de toga cederam (poderiam ter impedido). E a aprovação do novo nome para o STF tende a ser tensa.

O ano de 2026 vai ser pura pancadaria.

MAGA, o novo Reich

Moeda do último imperador romano e projeto de moeda do imperador ianque.

É sempre bom recordar que aquilo que chamamos de democracia existiu apenas em alguns momentos da história da humanidade e circunscrita a alguns territórios. Na Cidade Estado de Atenas até a ocupação macedônia, na República Romana que antecedeu o império e, após a revolução francesa, aquela que floresceu em alguns países ocidentais e chamada de democracia liberal. Em todas essas experiências históricas houve exclusões (mulheres, escravizados, estrangeiros, negros, pobres, analfabetos, etc.). Na maior parte das vezes o que existiu foi uma democracia limitada, legitimada pela existência de eleições periódicas, restritas, nem sempre justas, algumas vezes fraudulentas.

O modelo de democracia liberal aperfeiçoou-se após as grandes guerras, no contexto da guerra fria, em oposição à URSS. Ampliou-se o sufrágio universal. O chamado estado de bem estar social expandiu-se, ainda que restrito às antigas metrópoles coloniais na maioria dos casos. Um eficaz sistema de solução de conflitos, com liberdade de organização e expressão, legitimado por eleições regulares, porém com sutis salvaguardas para impedir que a hegemonia dos que detém o poder econômico fosse ameaçada.

A queda da república soviética incitou teorias mirabolantes, desde a do “fim da história” até a de uma “onda democratizante” inexorável. A ciência política ianque saudava com entusiasmo essa suposta consolidação democrática e deslocava o debate para o que seria a discussão da “qualidade” das diferentes democracias, inspirado pelo engenhoso modelo analítico da Poliarquia de Robert Dahl.

Só que, neste contexto, triunfou no campo econômico o neoliberalismo predatório da Escola de Chicago, filhotes da escola austríaca de Mises e Hayek, impulsionado por Ronald Reagan e Margareth Thatcher com o seu lema “ não há outra alternativa”. Parafraseando o velho Marx, podemos dizer que os vitoriosos da guerra fria – os democratas liberais – criaram os seus próprios coveiros. A desigualdade social intensificou-se brutalmente e, após a crise de 2008, assistimos a uma ascensão de políticos autocratas pelo mundo, nomeadas pelo impreciso e inútil conceito de “populismo”. Melhor seria denominá-los como ur-fascistas, o fascismo trans-histórico que Umberto Eco desnudou: práticas autoritárias que, ao manipular questões morais, são armas na defesa dos privilégios daqueles que se apropriam das riquezas materiais da sociedade.

Como já havia alertado o filósofo francês Paul Ricouer, a democracia é frágil. O dramaturgo alemão Bertold Brecht avisou que a derrota do nazismo nunca seria definitiva, pois a cadela do fascismo permaneceria sempre no cio. Primo Levi, sobrevivente do holocausto, também deixou o seu aviso: cada geração tem o seu fascismo para enfrentar.

Estamos agora diante da ascensão do fascismo do nosso tempo, capitaneado pelo führer  Donald Trump e seu projeto de reich, o MAGA. Um movimento do supremacismo branco que muito provavelmente levará o mundo a uma nova tragédia. Não se trata de sermos fatalistas. Mas a experiência histórica nos leva a essa conclusão.

Grosso modo, há duas proposições sobre como enfrentar o momento que estamos vivendo. Há os que acreditam que ainda é possível barrar o avanço do neofascismo. Outros veem que, apesar da necessária resistência, a derrocada da democracia ocidental é inevitável, o que nos levará a algumas décadas de trevas.

O intelectual italiano Franco Berardi está entre os mais pessimistas. Ele recorre à metáfora da avalanche. Diz que quando ela está em formação, ainda é possível contê-la. Mas depois que ela começa não há muito o que ser feito. O que estiver no caminho dela será destruído. Só nos resta tentar sobreviver, buscar refúgio em locais seguros, construir abrigos, se preparar para tempos difíceis e se organizar para a reconstrução num cenário de terra arrasada. Berardi é pessimista porque enxerga uma esquerda perdida e acuada, que não tem demonstrado ser capaz de oferecer novas utopias.

A avalanche está se formando ou já começou? Essa é a questão cuja resposta logo saberemos. Se está difícil ser otimista, ainda é possível cultivar a esperança de que encontraremos uma alternativa.

O führer Trump não aceita ser derrotado e é obstinado. O que ele não conseguiu no primeiro mandato, o poder absoluto, tentará conquistar até o final de 2026, a qualquer custo. Já dominou a suprema corte, que tem anulado os atos de resistência das instâncias inferiores. As eleições de meio de mandato no próximo ano serão decisivas para Trump dominar de vez o Congresso. Mapas de votantes nos distritos já estão sendo manipulados e articula-se a proibição de voto pelos correios. Tudo para obter uma subordinação total das instituições estatais ao seu poder autocrático. Não medirá as consequências de seus atos para alcançar este objetivo. Cortou financiamentos de universidades, ameaça censurar meios de comunicação que considera hostis. De forma inédita, fez uso da Força Nacional de Segurança em grandes redutos democratas (Los Angeles, Chicago, Washington DC e, talvez em breve, Nova Iorque). Tanto interna quanto externamente, usa a desculpa de combater o crime comum, que é uma bandeira de grande apelo popular. Classifica como terroristas o tráfico internacional de drogas e movimentos antifascistas.

Por sofrer de um sério transtorno narcísico, o führer Trump se arrisca a meter os pés pelas mãos e sofrer um revés. Há quem aposte na sua morte, pois a saúde dele estaria seriamente debilitada. No entanto, mesmo que isso ocorra, o jovem vice-presidente J.D. Vance foi escolhido com cuidado para garantir a continuidade do Project 2025 em qualquer eventualidade. Trata-se do projeto de transição presidencial elaborado pela Heritage Foundation para o Partido Republicano e que está em plena execução. Visa dar um poder absoluto para o Presidente implementar uma segunda Revolução Americana, que permanecerá “sem derramamento de sangue se a esquerda permitir” (palavras do presidente da Fundação Heritage). E não faltarão Carls Schmidts para criar um teoria jurídica que legitime esse poder autocrático. Relembrando Marx, as farsas se repetem ao longo da história.

Os democratas dos EUA – considerados como a “esquerda” naquelas bandas – enfrentam um adversário sem quaisquer escrúpulos. E há sérias dúvidas de que são capazes de virar o jogo. Não entendem que o tabuleiro foi quebrado e as regras rasgadas. Trump já demonstrou que pode estimular à violência política aberta, que será capaz de provocar uma guerra civil se isso for necessário para afirmar o seu poder. O recente assassinato do jovem líder neofascista esteve a ponto de deflagrar uma onda de violência política sem precedentes. Os EUA poderão em breve promover a sua “noite das facas longas”. Se nem um ex-aliado belicista e supremacista como John Bolton foi poupado, os democratas de lá podem se preparar para o pior dos mundos.

Para o restante do mundo, o que muda é apenas a aparência. Trump autorizou a CIA e a NSA abertamente a sabotarem os países que não se submetam. Algo que os democratas sempre fizeram, porém com discrição, e sem exibir o seu big stick sem qualquer pudor.

Uma ação militar cirúrgica na Venezuela parece que já está decidida. Maduro talvez venha a ser o Sulaimani da vez. No longo prazo, tem tudo para dar errado. Mas o que importa para o Tio Sam neste momento é dar o seu recado para os sulamericanos: “-Vocês são o nosso quintal, portanto, submetam-se!”

Que ninguém se engane: as “conversas produtivas” com o Brasil sobre o tarifaço é uma grande escaramuça. Podem ter descartado o clã de idiotas, mas não desistirão de atuar para que um fantoche servil seja eleito no ano que vem. E eles têm aliados: parlamentares que se vendem por qualquer punhado de dólares e militares especialistas em terraplanagem para recepcionar golpistas. Como afirmamos em postagem anterior, não faltam quinta-colunas dispostos  a servir ao MAGA-Reich.

O Império vai contra-atacar

Há um misto de ingenuidade e otimismo exagerado nas interpretações correntes sobre as palavras que Donald Trump dirigiu ao Lula desde a Assembleia da ONU. Apesar de Trump ser um notório falastrão, cujas palavras não valem um dólar furado, ele ainda consegue fomentar o auto-engano naqueles que se deixam levar pelo “wishfull thinking”.

O fato é que havia a expectativa do Tio Sam de que o Brasil se ajoelharia facilmente diante das represálias tarifárias e da Lei Magnitsky, sem oferecer grandes resistências. Sim, subestimaram a capacidade política do governo brasileiro, do STF e da nossa diplomacia para defender a soberania nacional. Os neofascistas dos EUA confiaram nas informações fornecidas por interlocutores cuja burrice é estonteante. Por conta disso, deram com os burros n’água. Prejudicaram grandes setores econômicos do próprio país. Não devem largar totalmente na estrada os lambe-botas servis mas já perceberam que o Dudu Bananinha e o neto de ditador não passam de idiotas úteis.

Trump, que não é burro, aplicou um freio de arrumação. Do alto de seu “complexo de superioridade”, fez afagos ao Lula e encaminhou para o seu subordinado radical – que não tem nenhuma química com o Lula – a tarefa de desenrolar as negociações.

Que ninguém se engane: Trump não desistirá da capitulação do Brasil. O teor do discurso do Lula na Assembleia da ONU pouco significa para ele. Não temos poderio bélico nem arsenal nuclear. Nossa infraestrutura tecnológica é totalmente dependente. Somos reféns da “nuvem” das bigtechs. Se quiserem, podem minar a nossa economia, não somente com tarifas e sanções, mas com ataques cibernéticos e outras sabotagens.

O anunciado encontro presencial para breve é mera tática diversionista. Trump deve oferecer ao Lula uma rendição honrosa. Será o maior desafio que o hábil negociador sindical terá na sua vida. Aliás, de Lula há uma frase sábia, que desnudou o lugar comum dos manuais de negociações: “-não existe negociação ganha-ganha; existe o que ganha e o que finge que também ganha”. A vitória que conta não é o resultado material em si, mas o ganho estratégico obtido.

Talvez o Brasil possa obter recuos em sanções e tarifas. Há concessões fáceis para eles, já que empresas poderosas dos EUA estão amargando perdas significativas. É possível que obtenha a promessa de investimentos tecnológicos para exploração de minerais estratégicos do interesse deles. Mas a cereja do bolo, o alinhamento geopolítico não será resolvido na mesa de negociações: eles nos querem fora do BRICS.

Por isso, mesmo que ocorra alguma normalização superficial nas relações diplomáticas e comerciais, os ataques prosseguirão. Sejam através de ações de força, intimidatórias ou desestabilizadoras, ou com as armas da guerra híbrida. Não deixarão de interferir para eleger um capacho para a Presidência do nosso país no ano que vem. Nos veem como o seu quintal e de tudo farão para minar a nossa soberania.

Por essa razão, a tarefa número um é isolar e derrotar os quinta-colunas que atuam em nosso país.

A expressão “quinta-coluna” teve origem na guerra civil espanhola (1936-1939). O general fascista Emilio Mola cercou a capital Madri, então sob controle dos democratas republicanos, com quatro colunas militares. Naquela oportunidade disse que contava com o apoio de uma “quinta coluna” que atuava dentro da cidade, os fascistas apoiadores do general Franco que sabotavam a resistência interna, com a difusão de boatos e atos terroristas. A expressão passou a ser usada nos anos seguintes para denominar os que colaboravam com a invasão nazista em seus países. Hoje, é usada para os traidores da pátria, aqueles que atuam contra o próprio país para favorecer agressores estrangeiros.

Como já comentamos em outra postagem, décadas de soft power dos EUA colonizaram mentes por todo o planeta. Tal como os nazifascistas do século XX, esse neofascismo mobiliza hoje os seus quinta-colunas em todas as nações.

(…)Somos os camisas verdes no Brasil, os camisas pretas na Inglaterra, os camisas azuis na França!…Anauê! Anauê! …As cidades nos uniram! Somos os Camisas Cáquis nos Estados Unidos, os Camisas Douradas no México, os Camisas Amarelas na China!…(fala de Castro Cott, personagem integralista da peça teatral  “Rasga Coração”, de Oduvaldo Viana Filho).

No caso do Brasil, sempre foram muitos os quinta-colunas entre nós. É algo que vem de longe. O integralismo foi um movimento de grande alcance no Brasil. Seus herdeiros ideológicos seguem atuantes e barulhentos, hoje na forma do bolsonarismo, com uma ampla hegemonia entre os militares das diferentes forças. Uma legião pronta para servir aos interesses de uma nação estrangeira acreditando na estúpida tese de que isso pode ser o melhor para o nosso país. 

O ataque dos EUA ao Brasil é somente uma das batalhas da guerra em curso no mundo. Uma guerra em fase inicial, com ações claras de beligerância, que ainda não descambou para confrontos militares mais amplos.

O neofascismo mundial declarou guerra à democracia ocidental. Estão unidos e articulados com um mesmo objetivo. O excepcionalismo, o denominado destino manifesto dos EUA se configura como o nazifascismo do século XXI. Trump é o novo führer e o MAGA é o novo projeto de reich.

Também não devemos nos enganar com aqueles que enaltecem uma suposta “robustez” da democracia brasileira. Nossa democracia é frágil, e não sucumbiu por uma conjunção de fatores favoráveis. Se Trump, e não Biden, estivesse ocupando a presidência dos EUA? A maioria dos comandantes militares teria aderido ao golpe? E se Fux estivesse no lugar do Alexandre de Moraes? Se não tivesse tido a Vaza jato, Lula teria sido libertado? A velha sabedoria maquiaveliana nos demonstra que os democratas tiveram uma boa dose de virtu para se aproveitar de um momento de fortuna.

Portanto, é bom deixar as barbas de molho. A guerra está só começando.

Sobre bananas e aviões

Em 1979, Jaime Roldós Aguilera foi democraticamente eleito presidente do Equador, interrompendo uma sequência de governos militares. Ele se opôs aos interesses de petrolíferas norte americanas e foi acusado pelo então presidente Ronald Reagan de se aproximar da URSS. Em 1981 morreu num “acidente” de avião. Houve quem dissesse que havia uma bomba escondida num gravador que carregava consigo. Caso abafado e relegado para o rol das teorias conspiratórias.

Pouco depois, Omar Efraín Torrijos Herrera, o presidente do Panamá que negociou com Jimmy Carter o retorno do canal para o próprio país – soberania que Trump deseja reverter – também morreu num acidente aéreo. Torrijos negociava como o Japão uma ampliação do Canal do Panamá, quando Reagan assumiu e manifestou indignação com a entrega do Canal aos panamenhos pelo governo democrata. Há documentos que contém fortes indícios de uma bomba detonada no voo.

Há uma ampla literatura sobre esses dois acidentes, com fortes evidências de que teriam sido perpetrados pela CIA.

Ademais há um vasto inventário de mortes de lideranças democratas em acidentes, não somente aéreos, mas também casos de possível envenenamento, mortes súbitas supostamente de causas naturais e acidentes automobilísticos. Em alguns casos, tudo indica que foram fatalidades mesmo. Mas em outros é gritante a coincidência das fatalidades mal explicadas terem acontecido num momento em que as vítimas ameaçavam profundamente os interesses dos EUA.

Os EUA só não tiveram sucesso com Fidel Castro, o maior alvo de tentativas de assassinato pela CIA. Há dúzias de documentos oficiais que comprovam a existência de vários planos fracassados. De acordo com a Inteligência Cubana, forma centenas, conforme o livro 638 Ways to Kill Castro, de Fabián Escalante.

Após três sustos em viagens aéreas, Lula deveria, urgentemente, pedir à Cuba uma cooperação técnica para se prevenir. CIA e MOSSAD não brincam em serviço. Sem falar que boa parte da tecnologia de navegação aérea é de origem israelense.

Ranald Reagan hoje seria considerado um gentleman. Fascistas – como Trump e Netanyahu – não tem limites.