Brasil, o Rei “Borg” e seu “Conselho de Paz”

Numa das mais recentes temporadas da longeva série de ficção científica Star Trek (Jornada nas Estrelas), a nova geração dos tripulantes da nave estelar USS Enterprise enfrenta uma poderosa raça cibernética alienígena. Os denominados “Borgs” capturam outras raças e as transformam em ciborgues, meio gente meio máquina, controlados por uma única mente, uma rainha da colmeia. Porém, antes do ataque, fazem uma advertência: “- Resistir é inútil, vocês serão assimilados“. E, após oferecem a alternativa de capitulação, sentenciam: “- Sua vida, como ela era, acabou. Adicionaremos suas características biológicas e tecnológicas às nossas. Sua cultura se adaptará para nos servir.” (frases transcritas dos episódios da série).

O que os roteiristas talvez não imaginassem é que essa criatura da ficção ocuparia a presidência dos EUA. Trump exibe o seu poder militar, que poucos podem desafiar, para exigir uma rendição aos seus desígnios. Já que resistir é inútil, a opção que resta é negociar, ou melhor, se postar de joelhos. O país agredido sabe que, se resistir, poderá ser devastado. O único trunfo é saber que o custo de uma invasão em larga escala para o agressor também seria elevado. Aliás, esse custo é único limite colocado para as decisões de Trump.

O uso de sanções econômicas para sabotar a economia dos países sempre foi o instrumento corriqueiro para desestabilizar regimes políticos. Ao semear o caos econômico, estimula-se a sedição popular. Procura-se assim criar fissuras e rachar o bloco que exerce o poder. Porém é uma pressão ineficaz em países que possuem um controle firme das suas forças armadas, caso em se enquadram a Venezuela, o Irã, Cuba e Nicarágua. Por essa razão, agora a ameaça de uso do poder militar superior entrou em cena como elemento de “convencimento”, para que se aceite uma rendição negociada.

Isso explica a espetacular ação militar na Venezuela, que teria utilizado recursos militares inéditos e ainda desconhecidos. Antes de tudo, foi uma exibição ao mundo de uma superioridade militar supostamente insuperável. E, como a condenação internacional foi pífia e protocolar, o celerado que comanda a maior potência militar do planeta está se sentindo bem à vontade para avançar nos seus planos. Numa entrevista completamente insana, anunciou que vai anexar a Groenlândia, da forma mais fácil ou mais difícil (em outras palavras, comprando ou invadindo). Avisou que o regime cubano terá que negociar a sua capitulação, porque cortará todo o suprimento de petróleo para a ilha. E, na ameaça mais ambiciosa – e preocupante – ameaça atacar o Irã para provocar uma mudança de regime do país. Uma ameaça que soa como clara bravata. Além da capacidade de reação do regime iraniano ser muito maior, o país está fora do “quintal” dos EUA. Ademais, o Irã possui significativos laços econômicos e militares com Rússia e China. Uma realidade muito diferente da Venezuela. Mas não se deve descartar um ataque cirúrgico, similar à do assassinato do general Soleimani ou às instalações nucleares subterrâneas.

Como já é de conhecimento público, Trump sofre de um profundo transtorno narcísico, o que dá um certo grau de imprevisibilidade às suas ações. Por enquanto, ele ainda joga pôquer: dobra a aposta, blefa, intimida os adversários para que paguem pra ver ou que saiam do jogo. E isso tem funcionado na maior parte das vezes. Mesmo quando Trump recua, ele volta para uma posição mais vantajosa do que tinha no início da jogatina.

O tarifaço que seria aplicado aos países europeus contrários a venda da Groenlândia para os EUA foi mais um grande blefe. No Fórum de Davos recuou da ameaça e insinuou que topa negociar uma presença maior naquele território, para ampliar instalações militares, controlar as rotas ao Ártico, instalar empresas que controlarão a exploração de minerais estratégicos da ilha. E ainda ofereceu um bônus de um milhão de dólares para cada um dos seus habitantes (que são apenas 57 mil). Se não fosse pelo criminoso passado colonialista da Europa, sentiríamos pena dos atuais líderes do continente europeu, tamanha a humilhação a que tem sido submetidos e pela ridícula capacidade de reagir com um mínimo de altivez. Tudo indica que, depois de espernearem, farão concessões.

Em paralelo, Trump lançou um embrião de um novo organismo internacional, o “Conselho de Paz” de Gaza. Quase uma nova ONU pra chamar de sua. Pelos países que estão aderindo, parece que vai se materializando a organização criada pela ficção cinematográfica, a OPA – Organização dos Países Ajoelhados (criação do saudoso cineasta argentino Fernando Solanas). https://www.youtube.com/watch?v=RAB98PtJgcA

O Brasil foi publicamente convidado a se integrar a esse Conselho, ao lado das repúblicas bananeiras vizinhas que já aderiram (Argentina e Paraguai). Como a proposta é sabidamente inaceitável, não se trata de um convite, mas sim de uma ameaça velada: queremos que vocês fiquem na nossa órbita, de joelhos; se não quiserem, vamos ajudar os que se dispõem a isso a ganhar as eleições daí esse ano. Se duvidam, “paguem pra ver”. Esse é o subtexto do tal convite. No mais, restam os exercícios de contorcionismo retórico para os nossos diplomatas.

Com o Brasil não há necessidade de ameaças militares. Pelo contrário, as FFAA brasileiras são ideologicamente subservientes e rastejantes ao Comando Militar Sul dos EUA. Porém as armas da guerra híbrida serão usadas em todas as suas modalidades para ajudar a eleger um capacho na presidência do Brasil. Se Trump levar adiante a ameça de aplicar tarifas de 25% aos que fazem comércio com o Irã, em breve sofreremos mais um ataque.

Recentemente, um médico norte-americano disse ter diagnosticado um quadro de inicial de demência em Trump. Se ele estiver certo, o mundo está caminhando sobre a lâmina de uma navalha. A insanidade dele poderá conduzir o mundo a mais um desastre civilizatório, porque é pouco provável que os políticos republicanos sejam capazes de contê-lo.

Em novembro, após as eleições de meio de mandato, Trump dará o seu golpe final. Talvez provoque deliberadamente uma guerra, tática comumente utilizada por déspotas para permanecerem no poder, mobilizando sentimentos nacionalistas. Já ameaçou usar a Lei de Insurreição contra governantes democratas. Se ainda assim Trump perder a eleição, a invasão do Capitólio de 2021 será vista como mera brincadeira de criança. Para alguns mais catastrofistas, há até o risco de uma guerra civil naquelas bandas. Por mais trágico que isso venha a ser, talvez o colapso interno dos EUA seja necessário para que o mundo tenha alguma esperança de paz.

A guerra será longa. Como fica o Brasil nisso?

O ano de 2026 começou com o ataque dos EUA à Venezuela. Um ataque simbólico, que marca o fim de uma era nas relações internacionais. E também um ato que historiadores do futuro – se houver futuro – talvez denominem como o marco inicial da terceira guerra mundial.

Para o Brasil, assim como para os demais países periféricos que integram aquilo que os EUA consideram o seu quintal, garantir a autodeterminação e soberania nacional será um desafio imenso. Este ano seremos alvo de várias ações comandadas pelos EUA para interferir no resultado das nossas eleições. Eles querem um capacho, um fantoche dos EUA na cadeira presidencial. E não faltam candidatos prontos para se prestarem a esse papel infame, vide as recentes postagens dos governadores presidenciáveis, quintas-colunas notórios. E eles contam com o apoio da nossa elite econômica neocolonial, que só quer garantir seus ganhos e privilégios, pouco se importando com o destino e o bem-estar da maioria do povo brasileiro.

Além dos conflitos bélicos se espraiando pelo planeta, vários analistas econômicos alertam que o mundo está à beira de uma crise econômica gravíssima, com o estouro de bolhas financeiras. A metáfora da avalanche, que o intelectual italiano Franco Berardi usa para descrever o momento atual do planeta, vai se confirmando:

Quando uma avalanche está prestes a se formar em uma montanha, talvez exista a possibilidade de impedir que ela desça em direção à cidade que está lá embaixo no vale. Mas, quando a avalanche já começou e desce rapidamente pela encosta, de nada adianta tentar detê-la; a única coisa que você pode fazer é escapar rapidamente(…) A sociedade não pode deter a avalanche, mas pode encontrar formas de sobreviver e se preparar para o que vem a seguir. O que resta a fazer é multiplicar os pontos de fuga e os refúgios onde sobreviver durante a tempestade.

Esse é o desafio que está colocado para o nosso país.

Derrotar eleitoralmente o neofascismo, os quintas-colunas serviçais de interesse estrangeiros, impedir o desmonte das nossas frágeis instituições democráticas. Eleger para a Câmara uma bancada mínima o suficiente para barrar retrocessos (mínima, porque uma maioria simples é uma meta pouco factível). Impedir que o Senado caia nas mãos dos neofascistas e subjugue o STF.

Como tornar isso possível? Esse será o tema das nossas próximas postagens.

Sobre os acontecimentos na Venezuela, este blog deixa a seguir algumas considerações descartáveis, diante de tanta coisa publicada por aí, com mais densidade e conhecimento. Apenas para registrar que a previsão das nossas postagens anteriores, de uma “intervenção cirúrgica” naquele país, se confirmou.

Como se previa, a Venezuela sofreu um ataque cirúrgico. O seu presidente foi sequestrado e exibido como um troféu. Um verdadeiro show midiático cujos dividendos políticos para Trump ainda são incertos, fora alimentar o seu narcisismo hiperbólico. Comprovou-se que a ameaça de invasão terrestre era uma bravata. O povo dos EUA não gosta de ver seus jovens retornarem em caixões, mesmo em casos de campanhas vitoriosas. E o governo do Tio Sam aprendeu alguma coisa com as experiências ruins que tiveram após as invasões da Líbia, Iraque e Afeganistão. Eventuais danos de uma invasão poderiam ter péssimas repercussões em um ano eleitoral, momento chave para Trump consolidar a sua autocracia.

A opção pelo pragmatismo parece ter triunfado. Em vez de uma ocupação militar sangrenta, com a imposição de um governante fantoche, foi oferecido aos chavistas a continuidade no poder. Em troca, exige-se a gestão dos recursos naturais (petróleo, ouro, outros minérios) pelas empresas ianques, incluindo a suspensão das relações comerciais com os inimigos do Império (Cuba, Irã, China, Rússia). E, principalmente, negociações em petro-dólares norte-americanos. Se essa inusitada arquitetura vai dar certo, logo saberemos. Tudo ainda está muito nebuloso. Para alguns, a total neutralização da resistência ao ataque não se explica somente pela superioridade tecnológica e militar. Se houve traição ou negociação prévia, só o tempo dirá. Para o povo venezuelano, o cenário não é nada animador.

O fato é que estamos testemunhando os primeiros momentos da terceira guerra mundial. Uma guerra que será longa. Como nas muitas horas gastas no clássico jogo de tabuleiro WAR, com avanços e recuos conforme os objetivos estratégicos dos jogadores. No mundo, serão anos de confrontação. A globalização criou cadeias produtivas que se integram e interagem além das fronteiras nacionais de uma forma complexa. Um rearranjo disso não será uma operação fácil nem rápida.

Todos sabem que o uso do arsenal nuclear pelas grandes potências poderá significar o fim da civilização humana como a conhecemos. No entanto, essas armas continuarão a ser invocadas. Nem que seja apenas como retórica, pelo seu óbvio poder de dissuasão. Claro que nunca poderemos descartar que um líder alucinado aperte o primeiro botão. Porém este não é o cenário mais provável. A guerra será de ocupação/capitulação – por meios militares ou não – dos territórios estratégicos para as grandes potências, de acordo com seus objetivos geopolíticos.

Tempos difíceis virão.