COMEÇA A GRANDE GUERRA DO BRASIL

A próxima eleição selará o destino do nosso país. Poderá nos condenar de vez à condição de uma gigantesca república bananeira ou nos dar alguma esperança de construir uma nação soberana, próspera e democrática. O cenário que se desenha, até o presente momento, é preocupante.  Tudo indica que será uma eleição decidida dentro da margem de erro. Vejamos alguns obstáculos que teremos pela frente:

1) A elite econômica do país não quer a reeleição do Lula.  Isso foi afirmado com todas as letras recentemente em um fórum empresarial. Essa decisão já se percebia em mensagens subliminares através de seus “diários oficiais” (Globo, Folha, Estadão). Essa escolha independe das ações do governo. Não importa que o agronegócio receba subsídios gigantescos, que a indústria receba financiamentos generosos via BNDES, que missões internacionais logrem abrir mercados para a exportação de produtos brasileiros. Nada disso sensibiliza os donos do dinheiro.  Porque, além do patrimônio, eles herdaram a mentalidade colonial escravocrata. A resistência feroz deles ao fim da escala 6 x 1 é a demonstração mais clara disso. Essa elite econômica não tem um projeto de nação, nada que inclua o bem-estar do conjunto da população. Ela só pensa em ampliar cada vez mais as suas riquezas. A patética reação do presidente da FIESP, que culpou o governo brasileiro pelo tarifaço aplicado pelos EUA, foi a expressão mais cristalina desse pensamento. Em outras palavras, dane-se a soberania nacional, desde que os ganhos das classes dominantes estejam garantidos. Apesar da condução da economia que não lhe é hostil, a elite econômica bananeira prefere um governante totalmente submisso aos interesses do capital especulativo e aos EUA. O setor industrial, sem projeto de país, se acomodou aos ganhos financeiros. Almeja apenas prosseguir na superexploração da mão de obra sem travas, enquanto o agro quer ampliar as ações predatórias – quando não criminosas – todos livres de limites regulatórios. Paradoxal é a situação do agronegócio, que minimiza os riscos de uma submissão política e econômica aos interesses de seu principal concorrente (os EUA). 

2) A grande imprensa, que é a porta voz da elite econômica, porque tem entre os seus membros os donos desses meios de comunicação, expõe cotidianamente o pensamento dessa classe.  Não somente em seus editoriais, nos quais lemos a enfática defesa da austeridade fiscal, críticas contundentes à “gastança” (gastos com programas sociais), defesa da privatização desenfreada, clamores para uma nova reforma de previdência e o ataque covarde ao fim da escala 6×1. É na cobertura corriqueira dos fatos que o seu pensamento sempre aparece de forma clara.  Pouco ou nenhum espaço é dado ao contraditório de seus “especialistas”.  Quando noticia políticas públicas governamentais, quase sempre destaca os problemas e subestima os efeitos positivos para a população mais vulnerável. Já o espaço e o tempo dedicado aos desmandos, abusos ou mesmo crimes dos oponentes do governo sempre é menor. Políticos ou governantes de direita envolvidos em atos de corrupção – ou quaisquer outros crimes comuns – são citados sem associá-los a legenda partidária a qual pertencem. Aliás, os mais bisonhos personagens da extrema-direita nunca são alvo de jornalismo investigativo, pauta que é quase exclusiva da imprensa alternativa (exceção feita àquela “revista de banqueiros feita para banqueiros“, que poucos leem).   Já quando se trata de políticos de esquerda, qualquer simples ilação negativa é tratada como fato incontestável e a cobertura é detalhada. Que a imprensa tem lado, todos sempre soubemos. Mas o jornalismo tem a obrigação de ser honesto diante dos fatos. E isso, frequentemente, o jornalismo da grande imprensa não é. Às vezes, com sutileza; outras vezes, de forma descarada (como o powerpoint da Globonews sobre o caso do Banco Master). E o descaramento vai se aprofundar, conforme se aproxima o pleito presidencial.  

3) A interferência do governo Trump nas eleições brasileiras vai se intensificar. Como se imaginava, o encontro amistoso dos presidentes em Washington foi pura encenação. A decisão de classificar o PCC e o CV como terroristas já estava tomada, assim como o tarifaço, disfarçado de represálias por práticas supostamente anticoncorrenciais com base na Special 301. Mais do que isso, o governo dos Estados Unidos classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) como “a maior organização criminosa do Hemisfério Ocidental”. A criação do “Escudo das Américas”, articulação de países com governantes submissos sob o pretexto de combater o narcotráfico, é mero disfarce para interferir na soberania dos países, afastá-los do BRICS e acessar/dominar recursos estratégicos e mercados. O Brasil é peça chave nesta estratégia dos EUA para impor a sua hegemonia no continente. Sabem que seus aliados candidatos a capacho por aqui não passam de um bando de imbecis úteis, facilmente manipuláveis, e farão de tudo para eleger um deles. Por isso o tema “Segurança Pública”, a exploração do medo, mais uma vez será central  na campanha eleitoral. Os candidatos fantoches vão discorrer demagogicamente sobre o “estilo Bukele” de combate à criminalidade, e também vão bater na tecla de redução da maioridade penal.

Porém, todas essas ações compõem apenas a camada superficial do que está sendo engendrado, muito além das querelas diplomáticas.  As armas da guerra híbrida, que ocultam as digitais da interferência criminosa dos EUA em um estado soberano, estarão fortemente presentes até a eleição. As ações clandestinas da CIA, NSA, Mossad e da empresa sionista Team Jorge irão se intensificar. Algoritmos replicarão as mais torpes imundícies nas redes sociais.  Operações tipo “falsa bandeira” (false flag), ações espetaculares do crime organizado, acidentes catastróficos, atentados, mortes súbitas e inesperadas, escândalos fabricados, difusão de pânico moral,  ataques de hackers; é longa a lista de possibilidades. Uma guerra suja que se intensificará.

4) O TSE será claramente tendencioso em suas decisões, não há porque ter ilusões a este respeito.  O Tribunal está sob hegemonia bolsonarista e tudo fará para favorecer o candidato da familícia.  Publicações difamatórias contra o governo serão despudoradamente mantidas, enquanto outras desfavoráveis ao clã, mesmo que verdadeiras, serão sumariamente retiradas.  A veracidade das pesquisas cujos resultados sejam indesejados continuará a ser objeto de insinuações tendenciosas ou mesmo de censura. A anulação da inelegibilidade de candidatos a cargos majoritários condenados pela Lei da ficha limpa faz parte do cardápio das ações facciosas. Afinal, sabe-se que a conquista de maioria no Senado é objetivo declarado dos neofascistas.   O comedimento na parcialidade dos atos do TSE dependerá somente da pressão pública. Por isso, qualquer tolerância às fake-news e usos criminosos da IA deverá ser ampla e vigorosamente denunciada. 

5) O uso eleitoral do escândalo Banco Master será dificultado, porque ele atinge o coração da extrema-direita.  A relatoria está com o ministro terrivelmente evangélico do STF, que também está no TSE e blinda o candidato do clã, inclusive cerceando o trabalho investigativo da Polícia Federal. A relação promíscua da famílicia com o caso Master só se tornou pública por conta de um vazamento de dados.  Do contrário, caminhava para ser abafada, ou cuidadosamente direcionada para outros alvos (entre tantos nomes do neofascismo comprometidíssimos com o escândalo, só foi autorizada busca e apreensão para um senador do PT da Bahia). A delação premiada seguirá empacada, pois Vorcaro deve estar sofrendo uma pressão pesada do clã e da classe política patrimonialista.  É presumível que tenham oferecido a ele uma anulação de pena em caso de vitória eleitoral, em troca de seu silêncio.  Tal como aconteceu com os assassinos/executores da Marielle, que só decidiram abrir a boca depois do fracasso do golpe de 8 de janeiro, que liquidou com qualquer esperança de indulto. Se Vorcaro não se submeter, corre o risco de ser “suicidado” na prisão.  

6) As bigtechs interferirão intensamente no processo eleitoral. Algoritmos explorarão as dificuldades econômicas derivadas da guerra no oriente médio, das catástrofes climáticas e aumentar a repercussão dos problemas da violência urbana. A grande imprensa desempenhará o abominável papel de fornecer conteúdos de impacto para viralização (as três manchetes idênticas dos maiores jornais sobre o filho do Lula , no mesmo dia,  é o exemplo mais recente) As redes da Meta impulsionarão os conteúdos neofascistas, enquanto as páginas e perfis progressistas serão retiradas do ar sem maiores explicações. É uma prática que já ocorre e que vai se intensificar. Apesar de se caracterizar como uma atividade criminosa, ela seguirá em alta, porque os braços da Lei ainda não sabem como alcançá-la e puni-la. Como já dissemos, o TSE seguirá leniente diante disto.

7) Cerca da 45% do eleitorado é absolutamente antilulista. Há uma rejeição cristalizada, que não mudará a curto prazo, porque é continuamente reforçada em bolhas informacionais. E 1/3 desse grupo está abduzido pela seita bolsonarista e segue bovinamente o clã, o que inviabiliza o sonho de uma terceira via acalentado pela elite econômica. Um de seus jornalões – que no passado recente se notabilizou pela ideia da “escolha difícil” – expôs abertamente o asco que a elite sente pelo candidato do clã. A repercussão do caso bolsomaster e do tariflávio reavivou a esperança de um nome alternativo desvinculado do clã, aproveitando o desgaste das disputas familiares pelo espólio do ex-presidente. Houve uma clara ofensiva nesse sentido, com a grande imprensa abrindo brechas na blindagem que vinha sendo oferecida. Porém, diante da resiliência do eleitorado-manada, sucumbirão ao “Flávio”, candidato sem sobrenome.   

8) A eleição provavelmente será decidida pelo voto de uma parcela equivalente a 5% dos eleitores. Um eleitor sem paixões e sem uma compreensão do significado do que está jogo nessa eleição. Ele decidirá o seu voto num último momento, conforme a sua percepção subjetiva da realidade, sujeito à influências das mais diversas, das igrejas evangélicas ao Tik Tok. O complicador  maior é que o cenário econômico não será confortável. Como inúmeras pesquisas têm constatado, apesar dos bons índices macroeconômicos, permanece uma sensação “mal-estar” que aflige grande parte da população. Há muitas hipóteses sendo levantadas para explicar esse fenômeno.  A inflação dos alimentos seguirá incomodando, seja por problemas climáticos que afetam a safra agrícola (o efeito El niño) ou o preço dos insumos externos (diesel e fertilizantes) afetados pela guerras na Ucrânia e Irã.  O alto custo do crédito mantém as famílias reféns de um endividamento que as sufoca. Programas sociais de sucesso não são mais suficientes para alterar a percepção da população. Políticas assistencialistas de última hora podem ter algum efeito (desenrola, subsídios para os combustíveis e alimentos, etc.), porém o cenário geral não deve mudar. Ou seja, mais uma vez há um grande risco das ovelhas votarem na raposa para tomar conta do pasto. 

9) Os partidos do chamado “centrão” decidiram se manter neutros em relação à chapa presidencial. Sabem que o controle do parlamento lhes garante um lugar no poder, seja qual for o vencedor. Assim, permanecem livres para tirar melhor proveito em cada Estado, se associando às chapas que lhes rendam mais votos. O velho oportunismo do voto paroquial, pragmático, que constrói bancadas que inviabilizam qualquer mudança estrutural no país. Se não houver uma contra ofensiva nos Estados para provocar uma renovação nas bancadas, a vitória sobre o neofascismo na eleição presidencial só prorrogará a agonia de uma governabilidade capenga até 2030.

Enfim, esse é o cenário que se desenha. Como podemos reagir para conter essas ofensivas do neofascismo? Isso é tema para a próxima postagem. 

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