Para derrotar o neofascismo bananeiro

Como temos afirmado aqui, a luta para nos libertarmos da sina de república bananeira tem o seu maior desafio nas eleições de 2026. É necessário derrotar o neofascismo, reeleger Lula e conquistar uma maioria parlamentar que lhe garanta mínimas condições de governabilidade.

Como fazer isso é o cerne da questão. O cenário, mesmo com um ligeiro favoritismo de Lula, não é nada animador.

A esquerda morreu, vaticinou recentemente um filósofo. Na verdade, não é que ela tenha morrido. Mas ela está gravemente doente, debilitada e, até o presente momento, encontra-se incapaz de recuperar o seu ímpeto transformador e revolucionário. O mundo do trabalho mudou, a classe trabalhadora fragmentou-se, sua composição ficou mais complexa, a revolução da internet redesenhou as relações sociais, e os partidos de esquerda ainda não conseguiram adequar a teoria aos novos tempos. Ainda que a luta de classes ainda exista e continue a ser a melhor chave interpretativa da realidade.

O cientista político francês Bernard Manin foi um dos primeiros a perceber que a democracia liberal – que ele chama de democracia representativa – caminhava para um beco sem saída. Além de não conseguir dar respostas às mudanças no mundo do trabalho, os partidos políticos de esquerda converteram-se em burocracias auto-centradas. É cada vez mais difícil para o eleitorado diferenciar os que defendem seus interesses dos que são os seus algozes. Uma vez no governo, o simples discurso classista não se traduz em políticas públicas estruturantes, aquelas capazes de promover rupturas que impactem de forma significativa e duradoura a vida da classe trabalhadora. A social-democracia, incapaz de romper com lógica econômica neoliberal, restringe-se a implementar políticas sociais compensatórias, cujo alcance tem limites claros e efeito eleitoral limitado. E que ainda podem ser facilmente descontinuadas por governantes posteriores.

Chegar ao poder pela via eleitoral significa governar em permanente estado de sítio, refém dos ajustes fiscais e pressões por privatizações de interesse do capital rentista. A esquerda eleitoral se rendeu ao lema TINA – There is no Alternative, conforme sentenciou Margareth Thatcher. É isso o que temos. E Lula demonstrou ter clara consciência disso.

Muitas vezes ganhamos as eleições com discurso de esquerda, e quando começamos a governar pensamos muito mais nos interesses dos nossos inimigos do que nos dos nossos amigos. Muitas vezes, a gente governa dando resposta à cobrança do mercado, à necessidade de contentar os adversários, e os nossos eleitores são considerados por nós sectários e radicais. Esse é o fracasso da democracia”. (Lula, set/2025, em reunião realizada a margem da Assembleia Geral da ONU).

O cenário é tão grave que mesmo Lula, depois de fazer inúmeros apelos à militância, já cogita a hipótese de oferecer a vice-presidência ao Centrão, para afastá-los de uma composição com o neofascismo. Lula é um negociador formado nas lutas sindicais. Não se arrisca em confrontos quando não tem trunfos fortes. Para ele, uma composição ruim é preferível a uma derrota.

O fato é que os inimigos são poderosos. São capazes de sabotar a governabilidade dos governantes que não se rendem. E os partidos preferem negociar concessões do que se arriscarem a perder o poder. Só que agora, com a ascensão do neofascismo, esse tipo de conciliação é cada vez mais inviável.

Para Manin, essa falência da democracia representativa (liberal) abriu o espaço para a emergência do que ele chama de “democracia de audiência”: o embate político para a ser pautado por temas morais e explorado pelo discurso de lideranças carismáticas em forma de espetáculo. Dos temas morais, a corrupção é a grande cereja do bolo. Como nenhum partido que chega ao poder consegue se manter imune a ela, todos são jogados numa vala comum, acusados de fazer parte de um mesmo “sistema”.

O neofascismo não perdeu a oportunidade de ressurgir das sombras. Relembrando a clássica frase de Bertold Brecht, a cadela que estava no cio percebeu que chegou o momento oportuno para ser fecundada e gerar novas crias. Dai a profusão de políticos “anti-sistema” em todo o mundo, explorando de forma demagógica as frustrações do eleitorado e colhendo frutos eleitorais.

A fragmentação da base social da esquerda, com a precarização do trabalho e o enfraquecimento dos sindicatos, levou parte da esquerda a dar mais relevância as chamadas pautas identitárias (racismo, feminismo, combate à homofobia, etc.). Dessa forma, ao levar o debate para o campo da moral, os reinam os preconceitos da sociedade, deu ao neofascismo um espaço ainda maior para semear a confusão (propagando fakes como kit gay, banheiros unissex, ideologia de gênero, etc.) e faturar eleitoralmente com isso. O processo da reforma constitucional fracassada no Chile contém muitas lições a esse respeito, que culminou com o impensável retorno do pinochetismo ao poder.

Alguns pontos para a reflexão:

1) O neofascismo continuará a explorar os temas morais, usando e abusando das fakes news. Além da corrupção, a questão da segurança pública emerge como uma das principais preocupações do eleitorado. E o neofascismo vai bater nessas teclas.

2) A estratégia do “Lulinha paz e amor” não funciona mais. O apelo à composição, a eterna preocupação de evitar confrontos, é o caminho para a derrota (ou para uma “vitória de Pirro”, com a perda do parlamento). A elite neocolonial trabalha com dois cenários: a) a eleição de um dos seus, que preferencialmente não seja da “familícia”. Foram funcionais em 2018, mas são agora fator de risco para os negócios; b) uma indigesta – para eles – reeleição, em que Lula não tenha grande margem de manobra e seja ainda mais refém do Centrão (fruto das movimentações recentes do Kassab).

3) Toda provocação em questões morais devem ser refutadas com a lógica luta de classes. Rede Globo, Folha e Estadão vão surtar, mas tem que ser o nós contra eles, sim! Temos que lembrar que o aborto só é crime para a mulher pobre; o combate à criminalidade só penaliza pobre, preto e favelado; ladrões de banco não são nada se comparados aos banqueiros. E só os primeiros são efetivamente punidos. Todo fato deve ser interpretado pela ótica da luta de classes.

Recentemente foram tornadas públicas varias pesquisas que tentam explicar os elementos que definem as escolhas eleitorais do brasileiro (More in Common, ICL, Meio/Ideia, etc.) Nas próximas postagens iremos comentar os resultados dessas pesquisas.

Porém, há uma experiência histórica que deve ser resgatada: a eleição de 1982 no Rio de Janeiro, em que Brizola derrotou a máquina clientelista/patrimonialista de Chagas Freitas. Ao contrário de Lula, Brizola nunca abriu mão do confronto, ainda que aceitasse negociar acordos a posteriori. Falaremos sobre isso em breve. Lula precisa incorporar algumas das maiores virtudes do BrizolaOu a derrota será imensa, mesmo “ganhando”. Lula, em seu discurso e em sua prática, precisa incorporar algumas das maiores virtudes do Brizola.

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