A MÃE DE TODAS AS BATALHAS

A eleição geral de 2026 será a mãe de todas as batalhas. Não se trata de uma simples escolha de governantes, mas de saber se o Brasil será uma nação soberana viável ou não nas próximas décadas.

A Câmara dos Deputados, cuja atual legislatura é a pior desde a redemocratização do país, provavelmente seguirá com uma composição de baixíssimo nível. Os cientistas políticos em suas pesquisas apontam que o sistema eleitoral de lista aberta consolida redutos eleitorais em que ações locais/paroquiais garantem a renovação de mandatos. Essa situação se agravou com volumosos recursos do orçamento que foram abocanhados com as emendas parlamentares. E isso se refletirá fortemente no resultado da eleição. Até porque a maior parte do eleitorado ignora a desastrosa atuação legislativa de seu candidato, e o julga apenas pelas ações locais perceptíveis no seu dia a dia. E uma larga parcela sequer lembra em quem votou na eleição anterior.

No Senado a situação é mais crítica. Serão renovadas 54 cadeiras das 81 existentes. Dos 27 senadores que permanecem apenas 5 são democratas; 14 são neofascistas e outros 8 são “independentes”( fisiológicos do “Centrão”). Não será fácil garantir a maioria simples de 41 votos. Numa eleição polarizada, a tendência é que os neofascistas e a direita conquistem metade das cadeiras. Mesmo que se articule a posteriori uma coalização governista, sabemos que a construção de maioria com partidos aliados é algo frágil, que pode se romper facilmente, porque quase sempre é baseada em arranjos meramente patrimonialistas. Senão vejamos a atual legislatura: ainda que tenha sido sido possível barrar algumas insanidades geradas na Câmara dos Deputados e aprovar a reforma tributária, o PL da devastação teve seus vetos derrubados e o PL da anistia aos golpistas (redução de penas que implicará na liberdade dos envolvidos em pouquíssimo tempo) segue pelo mesmo caminho. Com o neofascismo no comando do Senado, provavelmente o STF será subjugado e a Constituição cidadã será liquidada de vez.

Para a Presidência, a situação também não será fácil. O eleitorado segue dividido em suas preferências com base em impressões subjetivas criadas pela luta ideológica e pela manipulação de bandeiras morais, muitos acometidos de grave dissonância cognitiva. Para largas faixas da população os bons resultados na gestão econômica, o sucesso de programas sociais na educação e saúde, os ganhos reais por conta da redução de tributação e outros benefícios pouco interferem nas suas escolhas políticas. Como na clássica metáfora, muitas galinhas continuarão a votar no lobo para tomar conta do galinheiro. Como disse Noan Chomsky : A população em geral não sabe o que está acontecendo, e eles nem sequer sabem que não sabem.

Tudo indica que teremos outra vez uma eleição em dois turnos, decidida por uma margem estreita de votos. A grande imprensa aprofundará o seu jornalismo de guerra. Conteúdos falsos gerados com altíssima sofisticação pela IA serão disseminados pelos algoritmos com a cumplicidade das bigtechs, que serão poderosos players interessados nesta eleição. Veremos durante a campanha eleitoral toda sorte de jogo sujo nas redes sociais, a total falta de escrúpulos, o vale tudo da parte dos neofascistas. E com a luxuosa contribuição de ações subterrâneas articuladas pela CIA, NSA e Mossad (e só os tolos ainda creem que isso é “teoria da conspiração”).

As artimanhas da guerra híbrida são antigas. A ação do IPES e do IBAD na preparação do golpe de 1964 são bem conhecidas (desde a obra seminal de René Dreiffus em seu livro “1964: A conquista do Estado”) Só que a tecnologia de hoje permite que os efeitos das ações desestabilizadoras sejam sentidos mais rapidamente e em escala muito maior.

Já nos anos 70 cientista político Robert Leroy Wendzel fez um breve resumo das típicas ações da “guerra híbrida” (mesmo que esta expressão ainda não fosse usada).

(…)Talvez exista uma situação capaz de ser utilizada para gerar um escândalo e provocar a queda de determinada autoridade ou administração, ou talvez ocorra uma inquietação generalizada e se torne possível patrocinar distúrbios civis. Talvez, através de recursos não ostensivos de propaganda, o formulador de política possa “inundar” a população com “notícias” sobre os fracassos e a duplicidade do seu governo. Talvez determinada autoridade governamental possa ser subornada e então denunciada. Talvez falsos rumores possam ser iniciados, ou histórias falsas serem “plantadas” na imprensa a fim de gerarem ainda mais ressentimentos. Todos esses e outros procedimentos afetam o apoio que um governo recebe.(…) Talvez equipamentos e instalações possam ser sabotados. Possivelmente a capacidade econômica possa ser afetada através de infiltração em importantes organizações e, então, manipulá-las de modo contrário aos objetivos do estado, ou talvez seja possível contribuir para uma psicologia de inflação através de métodos não ostensivos.(…) [WENDZEL, Robert L. – Relações Internacionais. Brasília, UNB, 1985, p.103]

Por fim, o autor justifica o uso destes recursos:“As razões parecem suficientemente evidentes. Em primeiro, porque a utilização de técnicas para esse propósito é difícil de ser detectada e provada. Em segundo, porque o custo, em termos de pessoal, equipamento, finanças e prestígio, é relativamente baixo”.

Enfim, é isso o que nos aguarda.

É preciso urgentemente desenhar uma estratégia que impeça a trágica vitória do neofascismo servil.

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