A guerra será longa. Como fica o Brasil nisso?

O ano de 2026 começou com o ataque dos EUA à Venezuela. Um ataque simbólico, que marca o fim de uma era nas relações internacionais. E também um ato que historiadores do futuro – se houver futuro – talvez denominem como o marco inicial da terceira guerra mundial.

Para o Brasil, assim como para os demais países periféricos que integram aquilo que os EUA consideram o seu quintal, garantir a autodeterminação e soberania nacional será um desafio imenso. Este ano seremos alvo de várias ações comandadas pelos EUA para interferir no resultado das nossas eleições. Eles querem um capacho, um fantoche dos EUA na cadeira presidencial. E não faltam candidatos prontos para se prestarem a esse papel infame, vide as recentes postagens dos governadores presidenciáveis, quintas-colunas notórios. E eles contam com o apoio da nossa elite econômica neocolonial, que só quer garantir seus ganhos e privilégios, pouco se importando com o destino e o bem-estar da maioria do povo brasileiro.

Além dos conflitos bélicos se espraiando pelo planeta, vários analistas econômicos alertam que o mundo está à beira de uma crise econômica gravíssima, com o estouro de bolhas financeiras. A metáfora da avalanche, que o intelectual italiano Franco Berardi usa para descrever o momento atual do planeta, vai se confirmando:

Quando uma avalanche está prestes a se formar em uma montanha, talvez exista a possibilidade de impedir que ela desça em direção à cidade que está lá embaixo no vale. Mas, quando a avalanche já começou e desce rapidamente pela encosta, de nada adianta tentar detê-la; a única coisa que você pode fazer é escapar rapidamente(…) A sociedade não pode deter a avalanche, mas pode encontrar formas de sobreviver e se preparar para o que vem a seguir. O que resta a fazer é multiplicar os pontos de fuga e os refúgios onde sobreviver durante a tempestade.

Esse é o desafio que está colocado para o nosso país.

Derrotar eleitoralmente o neofascismo, os quintas-colunas serviçais de interesse estrangeiros, impedir o desmonte das nossas frágeis instituições democráticas. Eleger para a Câmara uma bancada mínima o suficiente para barrar retrocessos (mínima, porque uma maioria simples é uma meta pouco factível). Impedir que o Senado caia nas mãos dos neofascistas e subjugue o STF.

Como tornar isso possível? Esse será o tema das nossas próximas postagens.

Sobre os acontecimentos na Venezuela, este blog deixa a seguir algumas considerações descartáveis, diante de tanta coisa publicada por aí, com mais densidade e conhecimento. Apenas para registrar que a previsão das nossas postagens anteriores, de uma “intervenção cirúrgica” naquele país, se confirmou.

Como se previa, a Venezuela sofreu um ataque cirúrgico. O seu presidente foi sequestrado e exibido como um troféu. Um verdadeiro show midiático cujos dividendos políticos para Trump ainda são incertos, fora alimentar o seu narcisismo hiperbólico. Comprovou-se que a ameaça de invasão terrestre era uma bravata. O povo dos EUA não gosta de ver seus jovens retornarem em caixões, mesmo em casos de campanhas vitoriosas. E o governo do Tio Sam aprendeu alguma coisa com as experiências ruins que tiveram após as invasões da Líbia, Iraque e Afeganistão. Eventuais danos de uma invasão poderiam ter péssimas repercussões em um ano eleitoral, momento chave para Trump consolidar a sua autocracia.

A opção pelo pragmatismo parece ter triunfado. Em vez de uma ocupação militar sangrenta, com a imposição de um governante fantoche, foi oferecido aos chavistas a continuidade no poder. Em troca, exige-se a gestão dos recursos naturais (petróleo, ouro, outros minérios) pelas empresas ianques, incluindo a suspensão das relações comerciais com os inimigos do Império (Cuba, Irã, China, Rússia). E, principalmente, negociações em petro-dólares norte-americanos. Se essa inusitada arquitetura vai dar certo, logo saberemos. Tudo ainda está muito nebuloso. Para alguns, a total neutralização da resistência ao ataque não se explica somente pela superioridade tecnológica e militar. Se houve traição ou negociação prévia, só o tempo dirá. Para o povo venezuelano, o cenário não é nada animador.

O fato é que estamos testemunhando os primeiros momentos da terceira guerra mundial. Uma guerra que será longa. Como nas muitas horas gastas no clássico jogo de tabuleiro WAR, com avanços e recuos conforme os objetivos estratégicos dos jogadores. No mundo, serão anos de confrontação. A globalização criou cadeias produtivas que se integram e interagem além das fronteiras nacionais de uma forma complexa. Um rearranjo disso não será uma operação fácil nem rápida.

Todos sabem que o uso do arsenal nuclear pelas grandes potências poderá significar o fim da civilização humana como a conhecemos. No entanto, essas armas continuarão a ser invocadas. Nem que seja apenas como retórica, pelo seu óbvio poder de dissuasão. Claro que nunca poderemos descartar que um líder alucinado aperte o primeiro botão. Porém este não é o cenário mais provável. A guerra será de ocupação/capitulação – por meios militares ou não – dos territórios estratégicos para as grandes potências, de acordo com seus objetivos geopolíticos.

Tempos difíceis virão.

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